Assembleias de «Irmãos» em Portugal

Estudos Bíblicos

A Admissão na Igreja

Todos os crentes são membros do corpo de Cristo. É o dever da igreja manifestar esta verdade com toda a exactidão e fielmente. Nenhum ensino deve negar ou ofuscar a unidade de todos os crentes. Se perguntarmos como é que a Igreja local pode dar testemunho desta verdade, somos obrigados a relacionar esse testemunho com as normas que adoptam para receber outros em comunhão. Podemos resumir os princípios da admissão dos crentes da seguinte maneira:

  • A Igreja (Assembleia) deve receber todos os que Cristo recebeu. Portanto, recebei-vos uns aos outros como também Cristo nos recebeum para glória de Deus (Rm 15:7). Verifica-se que a base da verdadeira comunhão é o facto da pessoa já ter sidor recebida no Corpo de Cristo. A Igreja local só aceita e reconhece este facto se receber a pessoa em questão. Está em aqui também o caso da pessoa ter recebido o Senhor Jesus após ter assistido a alguma reunião evangelística da Assembleia ou por intermédio do testemunho pessoal de algum dos seus membros.
  • Contudo, esta regra tem excepções. O ensino do Novo Testamento sobre o assunto envolve três requisitos:
    1. O crente deve ter uma vida santa para poder ser admitido (1 Co 5:11; 10:21). Constituiria um testemunho impróprio da vocação santa da Igreja, receber um devasso, avarento, idólatra, maldizente, beberrão ou roubador.
    2. Intimamente a isto, está o facto de ser absolutamente impróprio receber crentes disciplinados por outra igreja local (1 Co 5:13). Isso seria a negação da unidade do Corpo de Cristo (Ef 4:4). Enquanto o crente disciplinado não for restaurado à comunhão do Senhor e do Seu povo, é considerado como gentio e publicano (Mt 18:17).
    3. Finalmente, o crente deve ser são na doutrina de Cristo (2 Jo 10). «Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tão-pouco o saudeis». A questão é saber o que esta expressão «doutrina de Cristo» implica. A explicação não nos é dada na passagem, mas parece que abrange as grandes verdades a respeito da Sua Pessoa e Obra; isto é: a Sua divindade, nascimento virginal, a Sua vida impecável, a Sua morte propiciatória, a Sua sepultura, a Sua ressurreição, ascensão e ainda a Sua segunda vinda.

Para resumir, concluímos que a Igreja local deve receer em comunhão todos os que, comprovadamente, nasceram de novo e vivem uma vida santa; os que não estão disciplinados por outra Assembleia e seguem a sã doutrina.

As Escrituras, porém, fornecem-nos mais ensinos salutares sobre o assunto da admissão. A Igreja (Assembleia) local deve:

Receber os fracos na fé (Rm 14:1) – Isto refere-se a crentes indevidamente escrupulosos acerca de assuntos que não brigam com a moral. Por exemplo, o facto de um crente ser vegetariano, beber vinho às refeições, comer carne de porco (etc. etc) não deve ser motivo para qualquer acto de disciplina. Tal não significa que sejam fracos na fé, mas se a pessoa faz desse facto um motivo de dissensão, nesse caso é "fraco na fé".

Receber os crentes sem fazer acepção de pessoas (Tiago 2:1-5) – A Bíblia avisa-nos do perigo de revelarmos consideração especial pelos ricos e desprezarmos os pobres. Este princípio aplica-se também a casos raciais, e aos de nível social ou cultura. A discriminação é anti-bíblica.

Receber os crentes tomando por base a vida eterna e não os conhecimentos que tenham (Actos 9:26-28) – A comunhão não depende do grau de instrução que alguém tem, mas sim da Pessoa a quem o crente conhece. Assim, Apolos foi recebido em Éfeso, apesar do seu conhecimento ser imperfeito (Actos 18-24-28).

Receber os crentes tomando por base a vida eterna e não as ordenanças.

Receber o crente tomando por vase a vida eterna e não o seu serviço – Porque talvez não concordemos com a maneira como alguém serve o Senhor, não é motivo para impedir que o crente seja recebido na igreja local. Em Lucas 9:53 lemos que os Samaritanos não receberam o Senhor Jesus porque o Seu propósito era como de quem ia para Jerusalém. O que os levou a tomar aquela atitude foi o seu espírito sectário, e não os princípios divinos.

Receber o crente sem olhar àquilo que ele tenha sido antes de se converter – Paulo tinha sido um perseguidor dos crentes, contudo, foi recebido sem terem em consideração o seu passado (Actos 9:27,28). Onésimo fora ladrão, mas Paulo exortou Filémon que o recebesse (Filémon 12,15,17). Quando a Igreja fecha as suas portas aos que dantes foram bêbados, jogadores, réprobos, mas agora já estão convertidos, perdeu o seu verdadeiro carácter para se tornar num mero clube social.

Receber os crentes no Senhor com alegria (Fp 2:29) – Na realidade, podemos dizer que assim como tratamos os membros mais fracos do Seu Corpo, assim tratamos o próprio Senhor. «Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes» (Mt 25:40).

Mas uma pergunta surge: Como pode uma Igreja saber que uma pessoa está realmente salva e é elegível para ser recebida em comunhão? Podemos sugerir cinco coisas, pelo menos, pelas quais podemos chegar a uma conclusão mais ou menos segura:

  1. O uso de cartas de recomendação (Rm 16:1). Qualquer crente que vai para uma igreja desconhecida, pode evitar muitas dificuldades e dissabores, se levar uma carta de recomendação da Igreja a que pertence, testificando da sua fé e maneira de viver.
  2. O testemunho de duas ou três testemunhas (Mt 18.16). Se o crente é conhecido de dois ou três crentes da igreja local, pode ser recebido em comunhão segundo o testemunho e recomendação desses crentes.
  3. O testemunho de um crente que tenha a confiança da Igreja. Paulo recomendou Febe aos crentes de Roma (Rm 16:1) e Epafrodito à Igreja de Filipos (Fp 2:28-30)
  4. A reputação dum crente como servo de Cristo (2 Co 3:1-3). Paulo dispensou a carta de recomendação para a Igreja de Corinto, porque era bem conhecido deles como apóstolo de Jesus Cristo.
  5. Uma cuidadosa investigação da própria Igreja, por meio dos anciãos, podendo interrogá-lo acerca da esperança que há nele (1 Pe 3 :15) e da sua fé em Cristo. Logo que estejam convencidos de que é uma alma nascida de novo, podem recebê-lo.

Importa, por fim, tratar de três assuntos que se levantam sobre o assunto:

1. Tem a Igreja o direito de "julgar" se um indivíduo está salvo ou não?

Neste caso, não somente tem o direito, mas também o dever sagrado, tendo em vista que os crtentes não devem ter comunhão com os descrentes (2 Co 6:14-17), devendo usar todos os meios razoáveis para discernir o estado espiritual dos que procuram juntar-se ao povo de Deus.

2. E se a Igreja recebe um indivíduo que, subsequentemente, ensina doutrina errada a outros crentes?

Neste caso, o ensino deve ser publicamente refutado pela Palavra de Deus (1 Tm 5:20). Uma Igreja fiel ao ensino do Novo Testamento só pode funcionar segundo a revelação da Bíblia. Deve ter anciãos piedosos, que saibam apontar o erro e defender a fé (Tito 1:9).

3. E se a Igreja recebe um indivíduo que assiste muito irregularmente e nunca mais volta?

Em primeiro lugar, devemos salientar que a comunhão significa participação da mesma crença. Os que estão em comunhão devem comparticipar da vida da Igreja, arcar com o fardo e responsabilidades, e participar em todo o trabalho. Restritamente falando, quem assiste a uma só reunião por semana, não está em comunhão.

Em referência ao indivíduo que é recebido, e não volta mais, a responsabilidade é dele. A Igreja tem a responsabilidade de lhe ensinar quais são os seus deveres para com ela. Portanto, ele passa a ter a responsabilidade de obedecer à verdade.

William McDonald

"Cristo Amou a Igreja" | Tradução: Viriato D. Sobral (1961)

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