Assembleias de «Irmãos» em Portugal

Estudos Bíblicos

O Baptismo do Espírito Santo

"Todos nós fomos baptizados em um Espírito, formando um corpo, quer Judeus quer Gregos, quer escravos quer livres" (1 aos Coríntios 12:13).

I – A Personalidade e Divindade do Espírito Santo

O Espírito Santo, tal como a Palavra de Deus no-Lo apresenta, não é apenas uma influência, a força activa de Deus, mas sim uma Pessoa divina, assim como o Pai e o Filho. Ele tem todos os atributos da divindade:

  • A Omnisciência – (1 aos Coríntios 2:10);
  • A Omnipotência – (Zacarias 4:6);
  • A Omnipresença – (Salmo 139:7);
  • A Eternidade – (Hebreus 9:14).

Estas passagens nos elevam a sua personalidade mostrando-nos, ao mesmo tempo, a Sua divindade:

  • O baptismo pela água é dado em nome do Espírito Santo, tal como em nome do Pai e do Filh9 (Mateus 28:19).
  • O Espírito Santo fala por nós. E uma Pessoa que fala (Marcos 13:11).
  • É um outro Consolador. Tem de ser uma Pessoa, tal como o primeiro Consolador, Jesus Cristo (João 14:16) [Note-se que a mesma palavra grega, "Parakletos", é empregada tanto para o Espírito Santo, como podemos ver em João 14:16 e 26; 15:26; 16:7, como para Jesus – 1 de João 2:1. Aliás, este epíteto (cognome) não se aplica senão a uma pessoa].
  • É preciso ser alguém para fazer lembrar, ensinar, etc. (João 14:26).
  • "Ele testificará de mim. E vós também testificareis" (João 15:26-27). Este paralelismo mostra claramente a Personalidade do Espírito Santo.
  • "Convém-vos que eu vá, porque se eu não for o Consolador não virá a vós" (João 16:7). Que vantagem poderia haver se, perdendo a Pessoa bendita do Senhor Jesus, ela fosse substituída por uma simples influência?!
  • "Quando vier aquele Espírito de verdade..." (João 16:13) [Note-se também que, no grego, sempre se emprega o pronome masculino quando se trata do Espírito Santo embora o nome "pneuma" (espírito) seja neutro].
  • Mentir ao Espírito Santo (v. 3) é mentir a Deus (v. 4)" (Actos 5:1-10);
  • "Disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabe e a Saulo..." (Actos 13:2). Temos aqui a Personalidade absoluta, pois uma influência não fala;
  • "Não entristeçais o Espírito Santo de Deus" (Efésios 4:30);
  • "O Espírito intercede por nós" (Romanos 8:26);
  • "Cristo está à direita de Deus e também intercede por nós" (Romanos 8:34). Temos, portanto, a interceder por nós, na Terra, uma Pessoa divina, o Espírito Santo, e no Céu, outra Pessoa divina, o Senhor Jesus;
  • "A intenção do Espírito" (Romanos 8:27);
  • "Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo, em todos. Um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo a cada um, como quer" (1 Coríntios 12:5-6 e 11).

Em Apocalipse 1:4 – O Espírito Santo, sob a forma de sete espíritos, é colocado na mesma posição que O Eterno e o Cristo. Finalmente, "a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com vós todos!" (2 Coríntios 13:13).


II – Diferentes Características sob os quais o Espírito Santo é Apresentado na Palavra de Deus

O Espírito Santo é apresentado como o Espírito de verdade, de vida, de poder, de amor, de conselho, de graça, de glória, de promessa, de adaptação (1);

Ele é o Espírito Santo, o Espírito de Deus, do Eterno, do Senhor, do Pai, de Jesus, de Cristo (2);

Mas também é considerado como:

  • Selo – O verbo selar é empregado pelo Senhor em João 6:27 e três vezes para os crentes em 2 Coríntios 1:22, Efésios 1:13 e 4:30. E a passagem de João 3:33 nos dá o sentido da palavra assim empregada: "Aquele que aceitou o Seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro". Assim, quando Deus sela um crente, dando-lhe o Espírito Santo, certifica a veracidade da sua fé. O selo é a marca que Deus aplica sobre um crente, reconhecendo-o como propriedade Sua, separando-o para Ele;
  • Unção – O verbo ungir é empregado pelo Senhor em Actos 10:38 (e também em Lucas 4:18 e em Actos 4:27) no sentido de uma consagração para o serviço. Empregada quatro (4) vezes para o crente (2 Coríntios 1:21 e 1 de João 2:20, 27, 27), esta expressão caracteriza a capacidade da inteligência espiritual para compreender as coisas de Deus (ler 1 Coríntios 2:6-16);
  • Penhor – Empregada três (3) vezes (2 Coríntios 1:22; 5:5 e Efésios 1:14), esta expressão indica a certeza das coisas que estão ainda em esperança. É, por assim dizer uma prestação sobre os bens que nos pertencem na glória;
  • Baptismo – O verbo baptizar não foi empregado quando o Espírito Santo desceu sobre o Senhor; e nas seguintes passagens da escritura, ele sempre é utilizado num sentido colectivo: em relação com a vinda inicial do Espírito Santo (Mateus 3:11; Marcos 1:8;Lucas 3:16; João 1:33), vindo baptizar Judeus (Actos 1:5) e Gentios (Actos 11:16), para serem um só corpo (1 Coríntios 12:13).

Assim, pela unção, temos o conhecimento; pelo selo, temos a segurança; e, tendo os penhores nos nossos corações, gozamos, por antecipação, da bênção, conhecida e em vista da qual fomos baptizados do Espírito Santo.


III – Algumas Funções do Espírito Santo

  1. É o Consolador dos crentes (João 14:16);
  2. Ensina e recorda as palavras do Senhor (João 14:26);
  3. Dá testemunho do Senhor (João 15:26);
  4. Convence o mundo do pecado, da Justiça e do Juízo (João 16:8-11);
  5. Guia em toda a verdade (João 16:13);
  6. Anuncia as coisas que hão de acontecer (João 16:13);
  7. Testifica que somos filhos de Deus (Romanos 8:16);
  8. Derrama o amor de Deus nos nossos corações (Romanos 5:5);
  9. Recebe do que é de Cristo e no-Lo anuncia (João 16:14);
  10. Inspira os autores sagradas (1 de Pedro 1:11 e 2 Pedro 1:21);
  11. Ajuda-nos nas nossas orações (Romanos 8:26-27; Efésios 6:8 e Judas 20);
  12. Distribui dons aos homens (l Coríntios 12:11).

Todas as funções do Espírito Santo parecem poder ser resumidas nesta declaração do Senhor Jesus: "Ele me glorificará" (João 16:14).


IV – Expressões que não devem ser confundidas

O Espírito Santo – Pessoa divina, eterna, como o Pai e o Filho;

Actividade do Espírito Santo – desenvolve-se em relação com a Terra, desde a primeira à última página da Bíblia (Génesis 1:2; Apocalipse 22:17). Pode-se extinguir a actividade do Espírito, especialmente numa igreja (1 Tessalonicenses 5:19);

O Dom do Espírito Santo – É da máxima importância compreender que é o próprio Espírito Santo quem constitui o dom. (Veja-se, por exemplo, Actos 10:44-46). Este Dom caracteriza exclusivamente o Cristianismo. Pelo Espírito Santo, vindo a este mundo como Pessoas divina, Deus vem selar a fé em Cristo, e, além disso, o Espírito Santo faz a Sua morada nos crentes. Junta-os também num só corpo para formar "uma habitação de Deus pelo Espírito" (Efésios 2:22);

Os Dons do Espírito Santo – São talentos, são capacidades outorgadas livre e soberanamente pelo Espírito Santo aos crentes, em vista do serviço cristão, para a salvação dos pecadores e para a edificação da Igreja;

A Plenitude do Espírito Santo – é a livre e inteira acção do Espírito Santo no crente, dando-lhe o pleno gozo das coisas celestiais, ou uma capacidade e um poder particular para um determinado serviço;

O Fruto do Espírito é a manifestação da vida divina no crente. Os frutos que ele dá são a demonstração da nova vida que ele recebeu de Deus e da actividade do Espírito Santo nele.


V – O Que Significa a Expressão "Ser Baptizado"?

Certas pessoas falam de "ser baptizado" no sentido de ser baptizado do Espírito Santo. Esta expressão presta-se a criar confusão, pois não é nunca empregada nas Sagradas Escrituras com esse sentido, mas sempre no sentido de ser baptizado com água, ou num sentido particular facilmente discernível (Ex Marcos 10:38-39 e Lucas 12:50). Com efeito, nos 96 empregos do termo "baptismo/baptizado" no Novo Testamento, não há senão sete (7) que se referem diretamente ao baptismo do Espírito Santo, com uma única excepção, que, aliás, apenas se aproxima (1 Coríntios 12:13), e todas estas estão colocadas para estabelecer um paralelismo com o baptismo da água. Quando a Escritura diz que uma pessoa é baptizada (sem precisar mais nada),ela sempre está evidenciados que esta é baptizada com água – e nada mais. Quanto à recepção do Espírito Santo, a Palavra de Deus exprime-se assim:

Dom do Espírito Santo – (Actos 2:38; 10:45; 15:8; Romanos 5:5. Ver ainda l aos Tessalonicenses 4:8 e l de João 3:24);

Receber o Espírito Santo – (Actos 10:47; 19:2, Romanos 8:15; 1 Coríntios 2:12);

Ser selado do Espírito Santo – (Efésios 1:13; 4:30)

Ser baptizado do Espírito Santo – (l Coríntios 12:13).

Estas expressões apresentam diferentes aspectos de um mesmo fato; são equivalentes, mas as duas primeiras são mais explícitas.

Notemos ainda, embora de passagem, que a Bíblia não fala nunca de uma "primeira experiência" e nem de uma "segunda experiência"; a própria palavra, no sentido que actualmente se lhe dá, é totalmente estranha ao Novo Testamento.


VI – Deve-se ser Baptizado de Fogo?

Nota sobre Mateus 3:11 e passagem paralela:

Nenhum outro, além de João Baptista, fala de se ser baptizado com o Espírito Santo e com fogo. Vejamos em que contexto (ler atentamente os versos 5 a 12, que formam um conjunto): Esta narrativa fala de duas espécies de indivíduos, dos verdadeiramente arrependidos (v. 6) e dos hipócritas (v. 7). são sucessivamente comparados a árvores que umas dão bons frutos e outras maus (v. 10), e também ao trigo e à palha (v. 12).

Fala-no também, e mui claramente, do julgamento que se abaterá sobre os maus, sendo os justos poupados (v. 10) e recolhidos no celeiro (v. 12). É assim que nos é dito no verso sete (7) acerca de "ira futura"; no verso 10, da "árvore cortada e lançada no fogo", e, enfim, no verso 12, da "eira limpa" e da "palha queimada num fogo inextinguível". É, pois, entre dois versos que falam de Julgamento que se situa esta declaração de João Baptista, que anuncia, da maneira mais transparente, o ato oficial que devia inaugurar as duas dispensações que iam seguir-se:

A da Graça – baptismo do Espírito Santo;

E a do Juízo – baptismo de fogo (ver Isaias 61:2 e Malaquias 3:2-3 e 4:1).

João não apresenta aqui o Messias como o Salvador vindo em graça, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29), mas sim como o Chefe do Reino. Aquele que devia executar o Julgamento sobre aqueles que não se arrependessem.

Significado do Fogo na Palavra de Deus:

É o emblema do Julgamento que consome, e esta passagem bem o demostra. Citemos, porém, mais alguns versículos para o confirmar:

  • "Porque um fogo se acendeu na minha ira e arderá até ao mais profundo do Inferno e consumirá a Terra" (Deuteronômio 32:22);
  • "Do Senhor dos Exércitos serás visitada com trovões... e labareda de fogo consumidor" (Isaias 29:6);
  • "Porque, eis que o Senhor virá em fogo; e os seus carros como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo. Porque, com fogo e com a sua espada, entrará o Senhor em Juízo com toda a carne" (Isaias 66:15-16);
  • "Porque o fogo se acendeu em minha ira, e sobre vós arderá" (Jeremias 15:14);
  • "Ó casa de David... Julgai justamente, e livrai o espoliado da mão do opressor, para que não saia o meu furor como fogo, e se acenda, sem que haja quem O apague, por causa da maldade de vossas acções" (Jeremias 21:12);
  • "Por isso eu derramei sobre eles a minha indignação; com o fogo do meu furor os consumi" (Ezequiel 2:31);
  • "O meu Juízo é ajuntar as nações e congregar os remos, para sobre eles derramar a minha indignação, e todo o ardor da minha ira, porque toda esta Terra será consumida pelo fogo do meu zelo" (Sofonias 3:8; ver também 1:18);
  • "Sim ,o nosso Deus, o Deus de graça, é também um fogo consumidor." (Hebreus 12:29).
Uma expressão inusitada:

Esta expressão, empregada uma vez por João Baptista, só é relatada por Mateus e Lucas, em relação com o carácter dos seus Evangelhos. Mateus apresenta o Messias, O Ungido, que, após ter sido suprimido, instaurará o Seu Reino para o Julgamento (Daniel 9:25-26; Salmo 2).

Lucas nos apresenta o Filho do homem, que, por causa da Sua humilhação e da sua obediência até à morte, recebeu a autoridade de julgar (João 5:27; Filipenses 2:8-11).

Além de Mateus 3:11 e de Lucas 3:16, esta expressão nunca é empregada. O próprio Senhor tinha ordenado aos Seus discípulos que ficassem em Jerusalém até serem revestidos do poder do Alto; que esperassem a promessa do Pai, que Ele enviaria (Lucas 24:49). Em Actos 1:5 Ele precisa: "Vos sereis baptizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias". E impressionante o paralelismo entre Actos 1:5 e Mateus 3:11, mas aqui o Senhor não acrescenta: "e com fogo", pois a promessa do Pai não é o Julgamento – que é "a sua estranha obra e o seu estranho acto" (Isaias 28:21), mas sim o DOM do Espírito Santo.

A descida do Espírito Santo é um Baptismo de Fogo?

A forma sob a qual o Espírito Santo veio baptizar os crentes é característica: Sobre Jesus, O Espírito Santo desceu sob a forma de uma pomba, símbolo da pureza, para selar Aquele que era sem pecado; em Actos 2 são línguas repartidas como que de fogo (Não nos é dito: línguas de fogo). E o poder de Deus em testemunho, é o Espírito descendo sobre pessoas que tem uma natureza pecadora (Em Levítico 23:17, os pães do Pentecostes tinham fermento, símbolo do mal – Lucas 12:1 e 1 aos Coríntios 5:7) Mas este não é um baptismo de Julgamento, porque o pode; era em graça, visto que toda a criatura em Jerusalém pode entender, na sua própria língua, as coisas magníficas de Deus. Não é notável ver, alguns anos depois, o apóstolo Paulo fazendo alusão à esta circunstância e dizer "E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João certamente baptizou com água, mas vós serei baptizados com o Espírito Santo (Actos 11:16)? Tendo vivido a circunstância inesquecível de Actos 2, afirma que este é o baptismo do Espírito Santo, mas guarda-se bem de o chamar um baptismo de fogo!

Sintamo-nos felizes por nosso Deus e Pai não responder às orações dos Seus, quando pedem: "Dá-nos um baptismo de fogo!" Não!... O Juízo dos verdadeiros crentes, Cristo o levou sobre a Cruz, e agora todo aquele que, do coração, crê nEle tem a vida eterna; não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida (João 5:24). O verdadeiro crente já não terá baptismo de fogo.


VII – O Que é o Baptismo do Espírito Santo?

Por vezes, ouve-se dizer: "Vocês tem o Espírito Santo, mas não são baptizados do Espírito Santo"! A narrativa de Actos 10 e 11 nos mostra bem o contra-senso de uma tal afirmação. É evidente que Cornélio e os seus não tinham o Espírito Santo antes de Pedro ir lhes pregar, pois o Espírito Santo cai sobre eles enquanto ouviam a Palavra (Actos 10:44). A própria Escritura afirma que há:

  • O DOM do Espírito Santo (Actos 10:45);
  • A RECEPÇÃO do Espírito Santo (Actos 10:47);
  • O BAPTISMO com o Espírito Santo, prometido pelo Senhor (Actos 11:16).

Os três outros casos relatados em Actos são de igual modo claros. Todos estão de acordo em que se trata mesmo do baptismo do Espírito Santo; vejamos:

  • Em Actos 2, embora o poder esteja presente, trata-se antes de mais nada da recepção do Espírito Santo, que Jesus glorificado envia do Céu (Actos 2:33). É bem o DOM do Espírito Santo (Actos 2:38);
  • Em Actos 8:15-17 é bem o Espírito Santo que é dado. Até mesmo Simão, o mágico, o tinha compreendido (v. 19);
  • Em Actos 19:1-7 é bem o Espírito Santo que vem sobre eles.

O Espírito Santo é apresentado na Palavra de Deus como um espírito de adopção e como um espírito de poder, mas de modo nenhum é como se houvesse dois espíritos santos, ou como se o Espírito Santo dado não o fosse imediata e completamente. São simplesmente dois aspectos, duas consequências da Sua presença no crente.

Como apóstolo Paulo, queremos pôr a seguinte questão: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Coríntios 3:16).


VIII – Como Que Nós Fazemos Parte do Corpo de Cristo?

A Escritura é clara: "Todos nós fomos baptizados em um Espírito (ou: no poder de um só Espírito), formando um corpo, quer judeus quer gregos, quer escravos quer livres, e todos temos bebido de um Espírito" (1 Coríntios 12:13).

É pelo baptismo do Espírito Santo, pela recepção do Espírito Santo que os crentes formam um só corpo, e por nenhum outro meio. A Igreja, corpo de Cristo, não existe senão depois da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Dizer a um verdadeiro Cristão que não foi baptizado do Espírito Santo é dizer que ele não 'faz parte do corpo de Cristo. Nós não reconhecemos nessas afirmações a voz do Bom Pastor. Quando o Espírito Santo é dado para unir os crentes, verifica-se que uma certa doutrina relativa ao baptismo do Espírito Santo tenta dividi-los. Virá isso de Deus? Não!... "Um inimigo fez isso" (Mateus 13:28).

Será preciso fazer notar que este verso fundamental se encontra no mesmo capítulo que a lista dos 9 dons ditos espirituais? Aliás, nos é dito com grande precisão que esses dons são distribuídos soberanamente pelo Espírito (l Coríntios 12:11), e não a todos (1 Coríntios 12:28-30). A Sagrada Escritura afirma: "Nós fomos todos baptizados em um só Espírito, para sermos um só corpo" (v. 13). No corpo humano há apenas um nariz, uma boca uma língua, mas há dois ouvidos, duas mãos, uma multidão de nervos, etc. E o mesmo se dá no Corpo de Cristo: "Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis" (v. 18). Quem ousará contestar o lugar que Deus deu a cada remido? Quem ousará dizer: Porque não és nariz, ou boca, ou língua, não fazes parte do corpo (v. 14-27)? Vamos tentar definir esses "cristãos" que não fariam parte do corpo de Cristo (ler todas as vezes o contexto):

  • Romanos 12:4-5 – Nenhuma exortação deste capítulo seria válida para eles;
  • 1 Coríntios 12:13-27 – Não teriam nem os dons da graça e nem ministérios;
  • Efésios 1:23 e Colossenses 1:18 – O Senhor não seria o seu Chefe ou a sua Cabeça;
  • Efésios 2:16 – Não seriam aproximados de Deus pelo sangue de Cristo; não conheceriam a paz e não seriam concidadãos dos santos, pessoas da Casa de Deus;
  • Efésios 3:6 – Não seriam participantes da promessa em Cristo, pelo Evangelho;
  • Efésios 4:4 – Não teriam esperança;
  • Efésios 4:12 – Não seriam santos e não poderiam aproveitar dos ministérios que o Senhor deu especialmente para a edificação do Seu Corpo;
  • Efésios 4:15-16 – Não poderiam crescer e nem ser edificados;
  • Efésios 5:29-30 – Não seriam alimentados nem amados por Cristo;
  • Colossenses 2:19 – Não seriam alimentados uns pelos outros, nem estariam unidos uns aos outros;
  • Colossenses 3:15 – A paz não reinaria em seus corações, e, verdadeiramente, não se poderia pedir que fossem reconhecidos!

Quais são, pois, esses Cristãos sem Consolador, sem poder para o testemunho, sem Guia para os conduzir na Verdade, não fazendo parte do Corpo de Cristo? Os apóstolos nunca os reconheceriam como Cristãos! (Ver Judas 19).


IX – O Espírito Santo "Em Vós" e o Espírito Santo "Sobre Vós"

Por vezes, ouve-se falar de Cristãos "na montanha" (tendo recebido o Espírito) e de Cristãos "no vale" (não tendo recebido o Espírito), o que faz eco às falsas doutrinas das "Testemunhas de Jeová" que dizem que há uma classe de "ungidos" (tendo recebido o Espírito), e uma classe de "outras ovelhas" (não tendo recebido o Espírito). Outros dizem que se pode ter o Espírito Santo "em si" sem tê-Lo "sobre si", designando assim duas "experiências" diferentes. Examinemos isto, porque é importante:

Nos 4 grupos de pessoas mencionados em Actos, sempre é dito: "O Espírito Santo sobre vós" (Actos 1:8; 8:16; 10:44; 19:6); e acabamos de ver que era a realização da promessa do Pai (Lucas 24:49), a consequência da exaltação de Cristo (João 7:39), e que esse baptismo era o Dom do Espírito Santo, a vinda do Espírito Santo para baptizar judeus e gentios num só Corpo (1 Coríntios 12:13). Ora em João 14:16-17, nos é dito claramente: "O Pai vos dará outro Consolador... O Espírito de Verdade... e estará em vós." Vemos claramente que as duas expressões são equivalentes. Ninguém põe em dúvida que os Coríntios tenham sido baptizados com o Espírito Santo, e a Palavra de Deus afirma: "Não sabeis que o vosso corpo éo templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus?" (l Coríntios 6:19). O Espírito Santo em vós ou o Espírito Santo sobre vós são dois aspectos de uma só e mesma verdade: a recepção do Espírito enquanto Pessoa divina.

Para tentarem firmar a falsa distinção acima mencionada, apoiam-se na passagem de João 20:22: "E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo", afirmam então que receberam o Espírito Santo neles (João 20) antes de O receberem sobre eles (Actos 2). (Note-se que as versões portuguesas mais correntes traduzem já, em 20:22, "sobre eles", e não "neles").

Convém fazer notar, desde já, o carácter excepcional e único da cena de João 20. Só os discípulos conheceram historicamente a Antiga Aliança, a presença do Messias vivendo sobre a Terra, a Sua morte, a Sua ressurreição, a Sua ascensão e a descida do Espírito Santo iniciando o período da graça. O pormenor da sua experiência e, pois, particular e não geral. Por outro lado, não se trata da recepção do Espírito Santo segundo João 14:17, porque:

O Espírito Santo não podia descer sobre a Terra na qualidade de Pessoa divina, segundo a promessa do Pai, senão em virtude da redenção e como consequência da glorificação de Cristo (João 7:39). Aliás, a confirmação disto é dada pelo próprio Senhor Jesus, quando diz, em Actos 1:4-8, após a circunstância de João 20: "... que esperassem a promessa do Pai... o Espírito Santo". Pedro dá o mesmo testemunho em Actos 2:33. João 20 não poderia ser a realização da promessa da divina;

Também não trata do novo nascimento, porque os discípulos já eram nascidos de novo. A Escritura também é categorica sobre este ponto.

O Verbo "assoprar", empregado aqui no original, é único no Novo Testamento, e não é empregado senão duas vezes no Antigo (versão grega dos Setenta):

  • Génesis 2:7 – "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente";
  • Ezequiel 37:9 – "Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam"!

Nós pensamos que em João 20 o Senhor Jesus comunica, sobre a base de uma obra realizada, a Sua vida de ressurreição. Da mesma maneira como o assopro do Eterno tinha introduzido Adão na primeira Criação, o assopro de Jesus ressuscitado introduz os crentes na Nova Criação, conforme está escrito: "O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante (1 Coríntios 15:45).

Esta passagem sublinha a grandeza e a glória do Cristo ressuscitado. E ele que traz ú paz, é Ele que envia os Seus discípulos, é Ele que comunica a Sua vida de ressurreição, é Ele que dá autoridade aos apóstolos!

Por outro lado, temos nos versículos 19 a 29 de João 20 um quadro profético notável. Com efeito, encontramos ali:

  • Os crentes reunidos no domingo, apesar da oposição. O Senhor Jesus aparecendo do meio deles e lhes trazendo a paz (v. 19);
  • A missão da Igreja, testemunha da ressurreição de Cristo (v. 20 e 21);
  • O Espírito Santo dado como conseqúência da obra da redenção (v. 22);
  • O privilégio e a responsabilidade da Igreja (v. 23);
  • A ausência de Tomé (tipificando o povo judeu, que faltou a bênção) (v. 24);
  • O testemunho da Igreja ao povo judeu, que recusa crer (v. 25);
  • Jesus manifestando-Se ao povo Judeu "oito dias depois", quer dizer, quando uma semana inteira (o período da Igreja) tiver decorrido (v. 26-27);
  • O povo Judeu que crerá quando vir o seu Messias (v. 28);
  • A parte privilegiada da Igreja que – só ela – terá recebido o Espírito de adoç5o (v. 29).

X – O Baptismo do Espírito Santo Depende do Baptismo da Água?

Ouve-se, por vezes, dizer: "Não podeis receber o Espírito Santo se não tiverdes sido baptizados em primeiro lugar com água, e por imersão". Pensamos que não é este o ensino das Sagradas Escrituras:

Em Actos 2:38 Pedro diz aos Judeus: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo; "Pode alguém, porventura, recusar a água, para que não sejam baptizados estes que também receberam, como nós, o Espírito Santo?" (ver Actos 10:44-48). E o mesmo apóstolo que fala, mas aqui referindo-se aos gentios.

Não procuramos estabelecer um princípio, e ainda menos uma ordem cronológica, mas afirmamos, de acordo com as Escrituras, que o Dom do Espírito Santo não depende do baptismo com água (e ainda menos de um método de administração), e que a graça de Deus não se deixa encerrar em princípio humanos. O baptismo com água é o selo humano (embora divinamente ordenado), colocado sobre a profissão de fé; o baptismo do Espírito Santo é o selo divino colocado sobre a fé de coração.

Em Actos 8:13 vemos que Simão, o mágico, creu, e sobre esta confissão de fé ele foi baptizado; mas quando Pedro e João oraram para que o Espírito Santo descesse sobre esses novos crentes, Simão, o mágico, não o recebeu. E a razão desse facto nos é dada nos versos 21 e 23: Simão não tinha realmente parte nem sorte naquele ministério. O seu coração não era recto perante Deus. Ele estava em fel de amargura, e em laço de iniquidade. Pode-se enganar o homem, mas a Deus nunca ninguém O enganará.


XI – Modos Segundo os Quais o Espírito Santo Foi Dado no Livros de Actos

O facto de o Espírito Santo ter sido dado em duas ocasiões pela imposição das mãos, tem sido desnaturado de tal maneira, que se tornou a base de todo um sistema. Mas vejamos o que dizem as Escrituras:

Caso Geral – Nos dois solenes acontecimentos em que o Espírito Santo veio baptizar judeus (Actos 2) e gentios (Actos 10), unindo-os em um só corpo (1 Coríntios 12:13), o Espírito Santo caiu sobre os dois grupos de pessoas, sem pedido e sem imposição de mãos. Nenhum caso particular poderia enfraquecer ou invalidar, e ainda menos substituir o princípio geral aqui estabelecido: É Deus quem dá o Espírito Santo, sem ter necessidade de um intermediário humano Este Dom é a porção de todos os crentes, confirmada pelo caso das 3.000 pessoas de Actos 2:41, pelo de Actos 4:4, e pelo de todas as epístolas (2 Coríntios 1:21-22; Efésios 1:13-14; Romanos 8:15; Gálatas 3:2). Não é, pois, questão de se pedir o Espírito Santo nem de imposição de mãos. Portanto, permaneçamos fiéis às Sagradas Escrituras, que é o que mais importa;

Casos Particulares – Em Actos 8:15-19 trata-se de samaritanos, povo mesclado (2 Reis 17), com o qual os judeus não tinham relações (João 4:9). A questão podia pôr-se, e muito seriamente, se Filipe não tivesse feito um trabalho pessoal, independente da obra de Deus, independente daqueles que o Senhor tinha estabelecido para cuidarem dos Seus interesses. Deus, na Sua sabedoria, a fim de que a obra permaneça una, dá o Espírito Santo por intermédio de Pedro e de João, pondo desse modo o selo da Sua aprovação sobre o ministério de Filipe, mostrando a plena identidade com a obra de Jerusalém e sublinhando a autoridade dos apóstolos.

Em Actos 19:6 trata-se de discípulos de João Baptista que, criam que o Messias baptizaria como Espírito Santo (Marcos 1:8), mas que não sabiam que essa promessa já havia sido realizada.

Paulo, não se considerando em nada inferior aos mais excelentes apóstolos (2 Coríntios 11:5), demonstra a validade do seu apostolado impondo as mãos a esses crentes e o Espírito Santo vem sobre eles.

Actualmente, todos os crentes se ligam ao caso geral, fazendo parte, quer do povo judeu, quer do gentio, recebendo o Espírito Santo sobre o princípio da fé, sem pedido e sem imposição de mãos. Não poderiam, de modo nenhum, ligar-se aos casos particulares acima referidos, porque não são nem Samaritanos nem discípulos de João Baptista!


XII – Para Quem é o Dom do Espírito Santo?

Se não é para o mundo (João 14:17), é, certamente:

  • Para aqueles que crêem (João 7:39; Actos 11:17);
  • Para os filhos de Deus (para os que tal se tornam pela fé (Gálatas4:6);
  • Para todos, isto é, para todos os que crêem (1 Coríntios 12:13);
  • Em Actos 2:1-4 vemos que são TODOS os que estão reunidos que recebem o Espírito Santo (trata-se, bem entendido, de crentes);
  • Em Actos 8 vemos que o Espírito Santo ainda não tinha descido sobre nenhum (v. 16), mas à oração de Pedro e de João, e seguindo-se a imposição das mãos dos apóstolos, eles receberam o Espírito Santo. Quem O recebeu? TODOS, excepto aquele que não tinha a fé do coração – Simão, o mágico. Sim, o Espírito Santo é para todos os que crêem, mas para aqueles que verdadeiramente crêem do coração;
  • Em Actos 10 vemos que são TODOS os que ouvem a Palavra de Deus (e a recebem!) que se beneficiam do Dom do Espírito Santo (v. 44);
  • Em Actos 19 são TODOS os que Paulo ensina e a quem impõe as mãos que recebem o Espírito Santo (v. 6-7).

Ao lado destes 4 casos há muitos outros, no mesmo livro, onde não se põe a questão da recepção do Espírito Santo, dado que a sua recepção era normal, como consequência da fé: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e A TODOS OS QUE ESTÃO LONGE, A TANTOS QUANTOS DEUS NOSSO SENHOR CHAMAR" (Actos 2:38-39). Quem não compreenderia tais palavras? Foi o que se passou com aqueles 3.000 convertidos de Actos 2:41, com os 5.000 de Actos 4:4, e com todos os outros (1). E o mesmo se deu com todos os Coríntios (1 Coríntios 2:12; 2 Coríntios 1:21-22), com todos os Efésios (Efésios 1:13-14), com todos os Romanos (Romanos 8:15), com todos os Gálatas (Gálatas 3:2).

Resta-nos considerar um versículo muitas vezes citado para afirmar que, se certas pessoas não têm ou não podem ter o Espírito Santo é porque não obedecem a Deus. Com efeito, Actos 5:32 diz-nos "nós somos testemunhas... nós e também o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que LHE obedecem".

Vejamos agora um pouco mais atentamente o ensino geral das Escrituras: Todos os homens são naturalmente "filhos da desobediência" (Efésios 2:2), mas todos são responsáveis perante Deus para se arrependerem (Actos 17:30) e crerem (João 3:16 1 Timóteo 2:4), para se tornarem "filhos da obediência" (l Pedro 1:14). De modo que não crer é desobedecer a Deus.(Ver 1 João 3:23).

A obediência e a fé estão intimamente ligadas nas Escrituras, que falam várias vezes da "obediência da fé" (Romanos 1:5; 16:26).

O Versículo mais elucidativo encontra-se em João 3:36: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece". Note-se que as palavras "crer", "desobedecer" ou "não crer" (João 3:36) e "obedecer" (Actos 5:32) têm a mesma raiz grega. Este verso mostra bem que aqueles que obedecem a Deus são simplesmente os que crêem, mas também que a obediência não está apenas ligada ao Dom do Espírito Santo, mas também à salvação. É, pois, falso dizer que uma pessoa salva não tem o Espírito Santo, porque não obedece a Deus; se ela não tem esta "obediência da fé", certamente não está salva.

Note-se que a afirmação deste facto fundamental não se opõe, de modo nenhum, a este outro facto: Um crente, filho de Deus, selado do Espírito Santo, pode, infelizmente, nem sempre se mostrar como um filho obediente. É por isso que ele é incessantemente exortado a essa obediência filial (os inconvertidos não podem sê-lo). Por outro lado, se ele não reconhece os direitos do Senhor sobre a sua vida, o Espírito Santo é entristecido.


XIII – Quando, Actualmente, Se Recebe o Espírito Santo?

A Sagrada Escritura diz:

  • Após ter crido (Efésios 1:13);
  • Quando somos filhos (Gálatas 4:6).

Se o Novo Nascimento é a comunicação da vida de Deus a um inconvertido (João 3:3-5; Mateus 18:3), o selo do Espírito Santo é o sinete que Deus apõe sobre o crente (João 7:39; 14:17). As duas coisas podem ocorrer simultaneamente, não ficando menos distintas por causa disso.

O livro de Actos nos apresenta dois casos em que o Espírito Santo não é dado imediatamente:

Actos 8 – Deus, por esse atraso (de alguns dias apenas!,) mantém a unidade da obra. É um caso muito particular; era a primeira vez que o Evangelho era anunciado fora dos estreitos limites de Jerusalém (Actos 8:1);

Actos 19 – Aqui o atraso é devido a uma falta de conhecimento acerca de um ponto fundamental da doutrina cristã. Esses "certos discípulos" que tinham sido instruídos por João Baptista e que viviam agora a 1.600 km de Jerusalém não sabiam que a obra da redenção já estava consumada. Eram "crentes", eram discípulos", mas a fé em um Messias que devia reinar não era suficiente para fazer deles Cristãos; era preciso crer na morte, na ressurreição e na glorificação de Cristo. A partir daí já não havia obstáculo a que eles recebessem o Espírito Santo.

Desde que uma alma conheça Jesus Cristo como seu Salvador pessoal, e descanse sobre a obra perfeita da Cruz, o Espírito Santo lhe é dado. E Ele dá ao crente O gozo da sua Salvação, o poder para andar segundo Deus, a certeza da sua adopção como filho.

  • Em Actos 2:37-41 vemos que os 3.000 judeus receberam o Espírito Santo no mesmo dia;
  • E em Actos 2:47 vemos que "todos os dias acrescentava o Senhor à Igreja aqueles que se haviam de salvar". Ora, é pelo baptismo do Espírito Santo que se faz parte da Igreja, que é o Corpo de Cristo (Efésios 4:4; 1 Coríntios 12:13).
  • Em Actos 10:44, no mesmo instante em que Cornélio e os seus ouvem a Palavra, anunciando-lhes a remissão dos seus pecados, o Espírito Santo cai sobre eles.

XIV – Como o Espírito Santo é Dado em Nossos Dias?

Alguns dizem: "Pedindo-O e procurando-O com jejum e oração"; outros afirmam: "Pela imposição das mãos na reunião de espera do Espírito Santo";

Mas a Sagrada Escritura diz:

  • Pela pregação da fé (Gálatas 3:2);
  • Pela fé (Gálatas 3:14).
  • Pedido do Espírito Santo:

Até ao Pentecostes, os crentes podiam pedir o Espírito Santo (Lucas 11:13), porque a promessa ainda não tinha sido cumprida (João 7:39). De igual modo, o Senhor orou ao Pai a fim de que o Consolador, o Espírito Santo, fosse enviado (João 14:16), mas seria contrário às Escrituras dizer que o Senhor continua a orar actualmente com esse fim, uma vez que em Actos 2:33 lemos que Jesus recebeu, da parte do Pai, a promessa do Espírito Santo.

Após a descida do Espírito Santo, no dia de Pentecoste, já não se põe mais a questão de pedir o Espírito Santo, nem nos Actos nem em nenhuma das epístolas. Façamos fé na Palavra de Deus, porque ela nos basta para nosso esclarecimento. Quanto aos verdadeiros Cristãos, podem dar graças a Deus, porque, segundo a Sua promessa, já "receberam o Espírito que provém de Deus" (l Coríntios 2:12). De duas, uma: Ou sois cristãos e recebestes o Espírito Santo, segundo a promessa divina, ou não sois absolutamente nada Cristãos (Romanos 8:9), e o que vos falta não é pedir o Espírito Santo, mas sim CRER! Apropriar-vos dos resultados da obra de Cristo e realizar a verdadeira posição cristã.

Imposição das mãos para a recepção do Espírito Santo:

O Livro de Actos relata-nos 2 casos (2) em que o Espírito Santo é dado após a imposição das mãos. Vamos considerá-los:

  • Então (Pedro e João) lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo (Actos 8:17);
  • E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo (Actos 19:6).

Nestes dois casos, como, aliás, lemos em Actos 8:18, o Espírito Santo é dado após a imposição das mãos dos Apóstolos. Quem não veria ali uma importante precisão? Bastará fazer estudos de Teologia, ou querer consagrar-se ao Ministério, ou ser aceito como Pastor por uma congregação para que o "crente" se torne apóstolo? (3) As epístolas nos dão algumas indicação nesse sentido? NENHUMA!

Reunião de espera do Espírito Santo:

Estão em flagrante oposição com os ensinamentos da Sagrada Escritura. É certo que os discípulos, após a ascensão do Senhor, deviam esperar em Jerusalém a realização da promessa do Pai, isto é, a vinda do Espírito Santo (Actos 1:4-5), e foi, certamente, o que eles fizeram; mas trata-se de um caso único. Pela primeira vez o Espírito Santo ia descer sobre os crentes para formar a Igreja de Deus, e isto como consequência da glorificação de Cristo (João 7:39; Actos 2:33). No dia de Pentecostes "estavam todos reunidos no mesmo lugar" (Actos 2:1). Oravam? A Palavra de Deus não no-lo diz. Estavam simplesmente juntos. Esperavam as manifestações que acompanharam e seguiram o derramamento do Espírito? Não! Ignoravam-nas simplesmente. Por um lado, as novas línguas de Marcos 16:17 eram para aqueles que iam crer, e não para aqueles que, crendo já, iam receber o Espírito Santo (João 7:39); por outro lado, a primeira epístola aos Corintios ainda não tinha sido escrita. E haverá por aí alguém que pense que se passavam entre eles as mesmas coisas que se podem ver nas chamadas reuniões de espera? Haverá quem creia que eles se estimulavam uns aos outros, dizendo: "Vamos... Vamos lá!... Está quase!... Dizei: Aleluia!"? Haverá quem creia que se pode arrancar a Deus, por uma encenação tão mortificante como contrária às Escrituras, aquilo que tanto o Pai como o Filho Se comprometeram a dar?! (4)

Como alguém disse, não se pode exprimir a dor que um verdadeiro Cristão sente quando vê os seus irmãos e irmãs "esperar horas e horas... orando, chorando, agonizando, gritando e transpirando a fim de receberem o baptismo do Espírito Santo; e após toda essa espera voltarem para suas casas vazios, desapontados, para na semana seguinte voltarem a orar, a cantar, louvar, agonizar de novo e de novo partir, mais uma vez desapontados – para tentarem mais uma vez noutra semana. E isto durante semanas, meses, e até anos!... Poderemos encontrar nas Sagradas Escrituras algo relacionado com esta procura e esta falência, com esta espera e esta falta de decoro, com estas idas e vindas, sempre vazios, sempre insatisfeitos, e sempre procurando? Poderá alguém encontrar um simples versículo que dê o menor encorajamento para este interminável desencorajamento?".

Nós dizemos, com Paulo: "Temo que, assim como a serpente enganou Eva, com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo" (2a aos Coríntios 11:3).

Notas de Rodapé

  1. Actos5:14; 6:7; 9:35; 9:42; 11:21 e 24; 13:12 e 48; 14:1 e 21; 17:4, 12 e 34; 19:18, etc.
  2. Dificilmente se pode levar em conta Actos 9:8-18 como apoiando esta tese, porque, por um lado, é sobre uma ordem precisa do próprio Senhor que a imposição das mãos tem lugar, por outro lado, esta parece estar unicamente em relação com a cura (v. 12).
  3. ver 1 Corintios 4:9 e 2 Coríntios 12:12.
  4. João 14:16 e 26; 15:26; Actos 2:33, etc.

XV – O Falar em Línguas é o Sinal Característico da Recepção do Espírito?

Que o falar em línguas, vindo de Deus, possa ser, em certos casos, um sinal da recepção do Espírito, não o contestaremos. A Escritura o diz (Actos 10:46); mas que seja o sinal inicial, o sinal característico, nós o negamos, pois a Bíblia afirma justamente o contrário:

Com efeito, no capítulo 12 da primeira epístola aos Coríntios Paulo, diz, no verso 13: "Todos nós fomos baptizados em um Espírito", mas no verso 30 põe a questão: "Falam todos diversas línguas?". Esta questão reclama uma resposta negativa. Se as línguas podem ser dadas a alguns, elas, contudo, não são a única demonstração da recepção do Espírito.

Mas, para se desembaraçar deste versículo, alguns ainda invocam estes dois argumentos:

1) Tratar-se-ia do dom de falar "outras línguas" concedido somente a alguns, e não do sinal das línguas, concedido a todos. Mas este argumento é falso, porque o versículo engloba, de forma evidente, tudo o que se pode chamar "falar em línguas". Aliás, em Actos 2:4 trata-se de falar "outras línguas" (ou seja, idiomas conhecidos);

2) Tratar-se-ia de um falar em línguas na igreja a (ver 1a aos Coríntios 14:27). O verso 28 do capítulo 12, sobre o qual se apoiam, não diz que esses dons (apóstolos, profetas, doutores, variedade de línguas) devem, obrigatoriamente, ser exercidos na igreja, mas, que foram colocados por Deus na igreja, o que é totalmente diferente. E ó verso 18 confirma: "Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis". A função dos diferentes membros pode e deve se exercer em benefício de todo o corpo (v. 25), mas, tal como no corpo humano, sempre em perfeita harmonia e clareza.

Nos capítulos 14,15 e 16 de João, onde o Senhor que estava próxima fala com os Seus discípulos acerca da Sua partida que estava próxima e da vinda do Espírito Santo, Ele não falou de um sinal cuja ausência signifique que certa pessoa não recebeu o Espírito Santo! Se um tal sinal existisse, se poderia dizer que o Senhor tinha Se esquecido de lhes dizer o essencial! Mas, pelo contrário, são dadas numerosas consequências da vinda do Espírito Santo, das quais queremos sublinhar duas:

  • Conduzir os crentes em toda a verdade;
  • Glorificar a Cristo.

É assim que os erros doutrinais e as desordens entre um grupo de crentes demonstram, sem a menor sombra de dúvida, que o Espírito Santo não tem ali a Sua livre acção.

Ainda que todos os Cristãos devessem falar uma língua incompreensível, isso não seria um sinal que os caracterizaria, que os identificaria como tais, visto encontrarmos o mesmo "fenómeno" nos:

  • Sacerdotes budistas;
  • Dervixes maometanos;
  • Zulus (indígenas de Bornéu);
  • Médiuns espiritas;
  • Numerosos doentes mentais;
  • Etc., etc.

Com efeito, a linguagem pessoal desses doentes (termos por eles fabricados, frases incoerentes) corresponde estranhamente ao "falar em línguas" que se observa em certas igrejas. Isto não está precisamente de acordo com os ensinamentos ministrados por certos "pastores"? Vamos escutá-los um pouco: "Deixai ir a vossa língua; dizei, não importa o quê; pronunciai as sílabas que vos vierem à cabeça, repeti-as, fazei descer a vossa inteligência até ao Zero!". Ou ainda: "Eu vou dizer algumas palavras e vocês vão repetir. Misturá-las também, e não se inquietem com isso. Continuem repetindo muitas dezenas de vezes e dentro em pouco falarão em línguas!". E é isto o que se verifica!...

Bastará dizer que o verdadeiro "dom de línguas", comunicado pelo Espírito de Deus, não tem nada a ver com essas aberrantes técnicas de desnaturação.

Citam quatro passagens para afirmarem que "o falar em línguas é o único testemunho dado pela escritura do baptismo do Espírito". São elas:

Actos 2 – Aqui notamos, porém, que as manifestações são espontâneas (v. 4), e não provocadas. Trata-se de um dom do Espírito, segundo 1~ aos Coríntios 12:10. A utilidade desse dom é demonstrada imediatamente (v. 5). A misericórdia divina neutraliza o julgamento caído sobre as nações em Génesis 11:6-9, de maneira que todos puderam entender, na sua própria língua, as coisas magníficas de Deus (v. 11);

Actos 10:46 – O dom de línguas comunicado soberanamente por Deus a esses crentes mostrava à evidência a recepção do Espírito. São os mesmos sinais que tinham sido dados em Actos 2, e assim Pedro pôde testemunhar perante os apóstolos que os gentios tinham mesmo recebido o Espírito Santo. Notemos, porém, que Pedro não diz simplesmente que o Espírito Santo caiu sobre eles, nem mesmo que caiu sobre eles de modo habitual, mas sim "como também sobre nós ao princípio" (Actos 11:15), e liga o facto à promessa que o Senhor tinha lembrado aos Seus discípulos justamente antes do Pentecostes (Actos 11:16; 1:5). Como alguém disse: "As línguas eram um sinal, não porque fossem esperadas, mas precisamente porque eram inesperadas, não pedidas, nem habituais – tal como no Pentecostes – e destinavam-se sobretudo a convencer os judeus, mesmo os mais opositores, que Deus queria tão bem os pagãos como os judeus entre o Seu povo";

Actos 19:6 – Eles falaram em línguas e profetizaram. São dois dons do Espírito Santo, mostrando, desse modo, que eles também tinham recebido o Espírito. Este Espírito Santo, cuja presença eles ignoravam, lhes foi então manifesto e confirmado por estes sinais incontestáveis.

Nestes três casos, que nos relata o livro de Actos (1), os dons do Espírito (falar em línguas, profetizar) mostram a recepção do Espírito Santo por esses diferentes grupos de crentes. Mas, teremos nós o direito de generalizar? (2) Porquê calar os milhares de outros casos individuais que também são relatados pelas Escrituras? E estes dons nunca são abordados em relação com a recepção do Espírito Santo. Ou Deus se comprometeu a dar o dom de línguas a todo o crente?! No capítulo 16 do Evangelho segundo. Marcos temos a reposta. Examinemos, pois, esses versículos:

Marcos 16:17-18 – Se quiséssemos afirmar, segundo esta passagem, que todos os crentes devem falar outras línguas, seria preciso afirmar ao mesmo tempo que:

  • Todos os crentes devem expulsar demónios;
  • Todos os crentes podem pegar em serpentes sem sofrerem algum dano (3):
  • Todos os crentes podem beber qualquer veneno mortal, sem que este lhes faça mal (4);
  • Todos os crentes devem impor as mãos aos doentes, e os doentes devem ficar curados!...

Bem entendido, todos os crentes podem facilmente impor as mãos aos enfermos, mas o sinal dado não está na imposição das mãos, mas sim na cura dos doentes! E não um de tempos a tempos, nem mesmo nove em cada dez, mas sim TODOS os enfermos curados! (5).

Ora, o que verificamos hoje? O desaparecimento, mais ou menos completo, desses sinais, que foram dados segundo a sabedoria de Deus, quando da implantação do Cristianismo.

Quando um crente é mordido por uma vi1 víbora ou por qualquer outra serpente cujo veneno seja mortal, o que ele faz? Apressa-se a procurar soro antiofídico, para evitar uma morte certa e terrível; e, se bebe veneno morre. A sabedoria de Deus teve o cuidado de retirar esses sinais, quando já não eram indispensáveis, dando, porém, ao homem inteligência bastante para se defender.

Em relação com esta passagem bíblica, julgamos dever fazer notar ainda:

  • Que se trata de sinais, e não de dons do Espírito;
  • Que esses sinais não eram prometidos aos apóstolos (os apóstolos tinham recebido a missão de pregar – verso 15), mas sim àqueles que iam crer por intermédio deles;
  • Que esses sinais são apresentados como consequência da fé (v. 17), e não como consequência de uma hipotética "segunda experiência".

Embora a Escritura afirme que "as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas sim para os infiéis" (1 Coríntios 14:22), este "falar em línguas" tornou-se um sinal para os crentes. Mas mais uma vez devemos notar que um tal ensino está à margem da Palavra de Deus.


XVI – Quais São os Sinais Escriturísticos da Recepção do Espírito?

Dizer aos crentes que não têm o Espírito Santo, porque não falam em línguas, porque não são o que poderiam ser, porque se ressentem do cansaço no caminho, é enganá-los! Fazer duvidar das promessas de Deus e perturbar as almas mal firmadas tem sido sempre a obra predilecta do Inimigo e dos seus agentes (Génesis 3:1-5). Edificar, fortificar, firmar na fé, tais são as actividades que procedem de Deus. Alimentemos da Pessoa de Cristo essas ovelhas fraquinhas e as ensinemos a andar pela fé – e não pela vista. (Mas, atenção: A fé que assenta em milagres não é a fé que salva!). Mostremos a elas que, se a sua vida é triste é porque não dão ao Senhor o primeiro lugar, é porque o Espírito, que está nelas, está entristecido (6), é porque toleram pecados não julgados, hábitos carnais ou mundanos. Lembremos-lhes que o sangue de Jesus Cristo purifica de todo o pecado e que a comunhão perdida pode ser reencontrada. Falemos-lhes da libertação do "EU", da carne, do pecado, do mundo; ensinemos-lhes qual é a verdadeira posição do crente em Cristo, mas não insistamos nunca para que elas façam ainda mais do que já faziam: ocupar-se delas próprias, das suas fraquezas, das suas insuficiências. Ocupar as almas delas próprias não é ministério que venha de Deus.

Muitos há que se servem da questão posta por Paulo aos discípulos de João Baptista para perturbar os cristãos autênticos: "Recebestes vós já o Espírito Santo, quando crestes?" (Actos 19:2). Não fariam muito melhor se estabelecessem as almas sobre o fundamento da Palavra de Deus e pusessem antes estas questões:

– Sabeis o que possui o crente que aceitou a Jesus Cristo com seu Salvador pessoal? – E a vida eterna! (E não como se ouve muitas vezes dizer: "uma vida eterna, que pode não ser eterna"!);

– Sabeis o que foi que Deus prometeu àqueles que puseram ~ sua confiança na obra da Cruz, que compreenderam que, se Cristo morreu por eles, também eles estão mortos com Cristo; àqueles que crêem no que a Bíblia chama "o Evangelho da nossa salvação"? – Foi o Espírito Santo! Escutai: "Depois que ouvistes a palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo" (Efésios 1:13);

– Tendes consciência de estardes "em Cristo?"

– Tendes consciência de que "Cristo está em vós"? (Romanos 8:1 e 10);

– Sabeis que isto está ligado à presença do Espírito Santo em vós? (João 14:15-23);

– Podeis chamar a Deus vosso Pai?

– É pelo Espírito de adopção que recebestes, que podeis conhecer esta relação filial, e éo mesmo Espírito que presta testemunho com o vosso espírito que sois filhos de Deus! (Romanos 8:14-16). [Muitos crentes oram a Deus chamando-Lhe SENHOR. É justo, mas é de recear, se isso se torna habitual, que eles não cheguem a realizar a sua verdadeira relação filial – de filhos (legítimos) para O Pai];

– Há amor puro e santo no vosso coração? Amor a Deus, amor pelos vosso irmãos, amor pelas almas que perecem? Se sim, podemos afirmar que o amor de Deus foi derramado no vosso coração. Sabeis como? "Pelo Espírito Santo, que vos foi dado" (Romanos 5:5; 1~a de João 4:12-13). Que preciosa segurança!

– A árvore é reconhecida pelo fruto que dá. Manifestais vós o "fruto do Espírito"? Bons frutos nunca poderão provir de uma árvore ruim! (Mateus 7:16-18) Vede também em Gálatas 5:22 quais são os frutos do Espírito.

Pudemos ler numa brochura que os três efeitos do baptismo do Espírito Santo (provado pelo falar em línguas) são:

  • Uma vida de adoração renovada;
  • Um gosto ainda desconhecido pela Palavra de Deus;
  • Uma alegria transbordante.

É indiscutível que a presença do Espírito Santo num crente produz normalmente louvor, apetite espiritual e alegria, mas receamos que os adjectivos empregados conduzam a uma análise interior doentia e desencorajante. Nos interrogamos como reagirão as pessoas que dizem às outras que não têm o Espírito Santo, quando encontram crentes que realizam melhor do que elas:

  • A adoração;
  • O gosto pela Palavra de Deus;
  • A alegria que dá a certeza da salvação.

Como, com efeito, gozar da certeza da salvação, quando, segundo o mesmo falso ensino, a salvação se pode perder, tal como o Espírito Santo! Se é certo que temos de perseverar, dia após dia, isto não seria atacar o valor da obra de Cristo, dizendo com outras palavras que: "Cristo dá ao crentes uma vida eterna que, praticamente, não é eterna (visto que se pode perder!), embora possa vir a sê-lo, mas somente se formos fiéis até o fim". Não será isto rebaixar odiosamente o valor do sangue de Cristo? Não será isto pregar uma salvação pelas obras? Em outras palavras: A obra de Cristo já não salva; é apenas suficiente para nos colocar num caminho onde poderemos obter a salvação pela nossa fidelidade!

Nunca um crente conhecerá a paz enquanto a fizer depender das suas experiências, das suas emoções ou da sua fidelidade. O único fundamento da nossa paz, da nossa alegria, da nossa salvação presente e eterna, da presença do Espírito Santo em nós, é a fé nas declarações da Palavra Deus, a fé no valor da obra de Cristo. Que nunca o esqueçamos!

"Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz, em crença, para que abundeis em esperança, pela virtude do Espírito Santo" (Romanos 15:13).


XVII – A Plenitude do Espírito Santo

As expressões "cheio do Espírito Santo" e "pleno do Espírito Santo" encontram-se 15 vezes no Novo Testamento. A primeira destas expressões está quase sempre ligada a um testemunho oral, muitas vezes num contexto de oposição. Parece ser uma capacidade excepcional para um serviço ou um testemunho particulares (7). A segunda nos faz pensar mais naturalmente num estado caracterizando certos crentes, mas que todos devem anelar (8).

A expressão "a plenitude do Espírito Santo" não se encontra na Bíblia, e nós não a empregamos aqui senão como caracterizando um crente em quem o Espírito Santo não é bloqueado pela carne.

Há quem ensine que o falar em línguas é o sinal característico da plenitude do Espírito – o máximo de um coração que transborda. E nós pomos as questões:

– Porquê João, Isabel, Zacarias não falaram em línguas, uma vez que foram cheios do Espírito Santo, mesmo antes de o Espírito Santo descer de forma definitiva sobre os crentes? (Lucas 1:15, 41, 47);

– Porquê nunca nos é dito que o Senhor Jesus falava em línguas, uma vez que Ele conhecia melhor que ninguém essa plenitude? (Lucas 4:1);

– Porquê o facto de "falar outras línguas" não é mencionado, senão uma vez em ligação com a plenitude do Espírito Santo? (Actos 2:4);

– Porquê, em todas as outras passagens, encontramos muitas outras manifestações como, por exemplo, a proclamação do Evangelho (Actos 4:8, 31), a contemplação de Jesus na glória (Actos 7:55), ou mesmo o discernimento de um mau estado espiritual (Actos 13:9)? Estando também intimamente ligada à alegria cristã (Actos 13:52).

Que esta "plenitude" pode ser recebida ou realizada no momento em que o Espírito Santo vem fazer a Sua morada no crente, é conforme as Escrituras (Actos 2:4; 9:17), mas a sua constância não é garantida; pode se renovar (Actos 4:31) e deve se renovar. É, ao mesmo tempo, privilégio e a responsabilidade do Cristão:

– Não vos embriaguez com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito;

– Falando entre vós em salmos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor, no vosso coração;

– Dando sempre graças por tudo ao nosso Deus e pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo;

– Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus (Efésios 5:18-21).

Trata-se de uma imposição, bem precisa, e dirigida a todos os Cristãos, e que deve ser posta em prática com todo o cuidado, para se evitar a exaltação.

Não nos é dito: "Orai para serdes cheios do Espírito", porque isso não depende de Deus, mas sim de nós. Se estivermos cheios de nós mesmos, plenos de coisas que bloqueiam tão facilmente os nosso corações, o Espírito Santo está, por assim dizer, impossibilitado, de nos encher: todo o espaço está já ocupado! O sentido em que isto nos édito também não é "enchei-vos", mas sim: "sede cheios". Confessemos tudo o que nos falta, apresentemo-nos perante Deus como vasos vazios. Ele nos encherá de Cristo, Ele nos encherá do Seu Espírito, não uma vez por todas, não algumas vezes, mas sim de modo contínuo: "Se alguém tem sede – disse Jesus – venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre" (João 7:37-38). E se não provamos esta plenitude, isso é devido a um obstáculo apenas: o pecado. Se o Espírito Santo estiver ocupado a fazer-nos julgar faltas e erros não confessados, Ele é em nós um Espírito de repreensão, e não pode, ao mesmo tempo, ocupar-nos de Cristo. Coloquemo-nos, pois, na luz de Deus, confessemos os nosso pecados, os nossos erros, com a certeza de que o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica (em grego: continua a purificar-nos) de todo o pecado (1 João 1:7).

Três consequências decorrem da plenitude do Espírito:

  1. O louvor;
  2. O reconhecimento ou gratidão;
  3. A submissão

Que esta seja a porção de todo o remido!


XVIII – O Fruto do Espírito

São todas as qualidades amáveis da nova natureza, que Deus nos comunicou, são os deliciosos frutos do Espírito Santo que nela opera.

A Epístola aos Gálatas nos dá a lista, hão limitativa, dos frutos que dão as duas naturezas do crente (e nós somos responsáveis de não deixarmos desenvolver senão os da nova natureza):

As Obras da Carne – "Prostituição, impureza, lascívia, (sensualidade) idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas" (Gálatas 5:19-21);

Os Frutos do Espírito – "Amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gálatas 5:22).

Nesta última lista os três primeiros caracteres nos apresentam os resultados da atividade do Espírito em nós, relativamente a Deus; os cinco seguintes, relativamente aos homens – e o último relativamente a nós mesmos. E a questão que se põe é esta: QUE FRUTOS NÓS PRODUZIMOS?

Notas:

  • 1. As línguas não são mencionadas nos capítulos 8 e 9. Não devemos, pois, introduzi-las artificialmente por raciocínio humano.
  • 2. Considerando a questão XXI, dissemos que os capítulos 2 e 10 ilustravam o caso geral, mas tratava-se então do dom do Espírito Santo, que é, manifestamente, para todos os crentes (Efésios 1:13), enquanto que aqui se trata de dons que são distribuídos soberanamente pelo espírito de Deus, mas não a todos (l Coríntios 12:28-30).
  • 3. Como foi, por exemplo, o caso de Paulo em Actos 28:5.
  • 4. Note-se que não é dito: "Quando lho tiverem feito beber", mas sim "quando tiverem bebido".
  • 5. Actos 5:16 e 28:8-9. Depois do Pentecostes a Bíblia não nos relata nenhum caso de insucesso na cura de um doente.
  • 6. E como o não estaria quando, por um falso ensino, do qual os promotores hão de dar contas um dia, Lhe fazem a injuria de O ignorar?
  • 7. Oito empregos: Lucas 1:15,41,67;Actos2:4;4:8e31;9:17; 13:9.
  • 8. Sete empregos: 5 vezes o adjectivo: Lucas 4:1; Actos 6:3, 7:55; 11:24. Duas vezes o verbo: Actos 13:52; Efésios 5:18 (traduzido por "encher").

Pierre Oddon

"In Leituras Cristãs", XXXV

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