Assembleias de «Irmãos» em Portugal

Estudos Bíblicos

Os Anciãos

I – INTRODUÇÃO

Nenhum estudo sobre a Igreja seria completo, sem considerarmos a provisão que Deus fez para o seu bem-estar espiritual e superintendência. Esta missão está entregue aos bispos (1), anciãos (1) (ou, pastores (1).

Nota: (1) bispo = pastor = ancião. São três palavras para designar o mesmo género de pessoas na Igreja

Desde o início, convém-nos esclarecer alguns pontos:

A) Em primeiro lugar, é necessário distinguir o conceito da palavra "bispo" segundo o ensino do Novo Testamento, e o titulo usado nos nossos dias. No tempo dos apóstolos, o bispo era simplesmente um crente experimentado que, na Igreja local, cuidava dos interesses espirituais e bem-estar da Igreja. Hoje em dia, na cristandade, o bispo é um dignitário eclesiástico nomeado para exercer jurisdição sobre muitas igrejas. No Novo Testamento a palavra "bispo" nunca significa um prelado, ou superior eclesiástico. Hoje, em muitos sectores da cristandade, significa um indivíduo que está à frente duma diocese, abrangendo um certo número de igrejas e seu clero.

B) Segundo o Novo Testamento, os bispos não constituem uma classe de homens para mediar entre Deus e as Suas criaturas. Talvez fosse para corrigir tal pretensão (que surgiria no futuro) que o Espírito de Deus classificou os bispos em segundo lugar, quando Paulo escreveu à Igreja em Filipos: "A todos os santos em Cristo Jesus... com os bispos e diáconos".

C) O pensamento de oficialismo não se encontra no Novo Testamento. Em vez de cargos elevados com seus títulos magníficos, somos exortados a trabalhar humildemente entre o povo de Deus. Assim lemos: "Se alguém deseja o episcopado (superintendência), excelente obra deseja" (1 Tm 3:1). Superintendência é trabalho, não é um título dignitário.

D) Finalmente, devemos notar, à guisa de introdução, que as palavras "bispo". "ancião", "superintendente" e "presbítero" no Novo Testamento, reterem-se todas a mesma pessoa, como podemos verificar. comparando as seguintes passagens:

Em Actos 20:17 faz-se referência aos anciãos da Igreja. A versão brasileira traduz a palavra por "presbítero" em vez de ancião, que significa o mesmo.

Depois, em Actos 20:28, os mesmos "anciãos" ou "presbíteros" são chamados superintendentes e a palavra em causa é "bispo"

Em Tito 1:5, Paulo instrui Tito a estabelecer presbíteros; e no versículo 7 dá-nos as suas qualificações, referindo-se a eles como "bispos", indicando mais uma vez que "anciãos" e "bispos" significam o mesmo.

II – COMO SÃO ESCOLHIDOS OU DESIGNADOS OS ANCIÃOS

A) Em última análise, só o Espírito-Santo é que pode constituir anciãos (Actos 20:28). Ainda que a Igreja se reuna em ajuntamento solene para eleger anciãos, o seu voto não pode criar no homem uma alma de ancião.

B) A norma das Escrituras segue a seguinte ordem: Deus constitui os anciãos. Depois, à medida que eles vão fazendo o trabalho que lhes compete, a Igreja reconhece-os como bispos ou anciãos, divinamente eleitos.

C) É certo que Paulo e outros elegeram ou apontaram anciãos (Actos 14:23; Tito 1:5), mas isso foi antes do Novo Testamento estar todo reduzido a escrito e ao alcance das Igrejas. Na falta de instruções escritas sobre as qualificações dos anciãos, as Igrejas dependiam dos apóstolos ou dos que os apóstolos indicavam.

Devemos também notar que Paulo nunca designou anciãos na primeira visita a qualquer igreja, antes esperava até que os anciãos, eleitos por Deus, manifestassem o seu dom pelo seu próprio trabalho. Depois indicava-os à Igreja para que fossem reconhecidos.

III – QUALIFICAÇÕES

As Escrituras revelam-nos indubitavelmente as qualificações dum verdadeiro bispo ou ancião. Encontrámo-las em I Tm 3:1-7-e em Tito 1:6-9. e podem ser resumidas da seguinte maneira.

A) Em primeiro lugar, o bispo deve ser irrepreensível. A sua reputação deve estar acima de qualquer crítica. Não diz que é impecável mas que deve ser irrepreensível. Se contra ele se provar publicamente qualquer acusação, deve deixar de exercer os deveres de ancião

B) Em segundo lugar deve ser marido de uma mulher. Alguns pensam que isto implica que o ancião deve ser casado outros que temos aqui uma proibição contra a poligamia – ter mais que uma mulher. Este é efectivamente o verdadeiro pensamento.

C) Também deve ser vigilante. Há outra versão em que esta palavra se traduz por sóbrio. O ancião não deve ser dado a excessos. Há pessoas que dificilmente se moderam. Caem sempre em extremos. Algumas vezes encontram-se nas Igrejas homens desta natureza; não devem ser reconhecidos como anciãos.

D) O ancião deve ser sóbrio – moderado. Deve provar pela sua vida que o Cristianismo não é um passatempo agradável ou frivolidade. O ancião luta e vive para a eternidade.

E) Deve ser honesto e também metódico. Ser descuidado ou usar métodos indignos não fica bem aos que servem numa Casa onde há ordem.

F) Depois lemos que deve ser hospitaleiro ou amante da hospitalidade. O seu lar deve estar aberto ao povo de Deus. Deve ser como o lar de Lázaro, Maria e Marta em Betânia – lugar onde Jesus tinha prazer em estar.

G) O bispo deve estar apto a ensinar. Conquanto não seja um mestre notável, deve saber manejar suficientemente as Escrituras de modo a poder ajudar o povo de Deus a resolver os problemas que surjam.

H) Não dado ao vinho. Qualquer homem que não domina os seus apetites, certamente que não é digno dum lugar de confiança na Igreja.

I) Não deve ser espancador. O sentido literal da palavra é que não deve usar de violência para com os outros. Espancar ou maltratar alguém não é próprio do cristão e muito menos dum ancião da Igreja.

J) Não deve ser cobiçoso de torpe ganância. O verdadeiro bispo, ou ancião, compreende que o dinheiro deve ser usado para o Senhor e para o progresso da Sua Obra. Um crente ganancioso e cobiçoso é um paradoxo.

K) Deve ser paciente. O Mestre era manso e humilde; cumpre ao servo ser como o seu Mestre. Mansidão e paciência não são virtudes deste século, mas ainda se encontram no Reino de Deus.

L) Não deve ser contencioso. Alguns estão prontos a contender por causa de assuntos de pouca importância. Isto não seria próprio de um bispo ou ancião.

M) Além disso, não deve ser cobiçoso. Cobiçar é querermos aquilo que Deus na Sua providência nunca quis que nós possuíssemos. A cobiça é idolatria, porque põe a vontade própria acima da de Deus.

N) O ancião deve "governar bem a sua própria casa, tendo os seus filhos em sujeição, com toda a modéstia" – filhos crentes, que não sejam rebeldes nem desobedientes. A necessidade deste requisito é evidente: "Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?" (1 Timóteo 3:5)

O) Não deve ser neófito. Isto está implicado no termo " ancião". E necessário maturidade espiritual. A pessoa pode ser de idade e, contudo, não ter as qualificações para o governo espiritual da Igreja, devido a ter pouca experiência da vida cristã. O perigo com o neófito é de se ensoberbecer, e cair na tentação do diabo.

P) "Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora". O mundo deve notar nele o carácter de um verdadeiro crente e um homem íntegro.

Q) Não deve ser obstinado, nem iracundo, mas deve seguir o Bem. Importa ser justo e santo. Finalmente, deve reter a palavra da verdade: isto é ser um defensor da Fé.

Resumindo as qualificações do ancião, podemos dizer que ele deve exercer domínio próprio, governar bem a sua própria casa e pugnar pela Verdade de Deus.

Notemos que a Bíblia nada diz acerca do bispo ou ancião ter de ser ordenado. Não diz que tem de ter um curso superior ou que tem de ter um curso numa Escola Teológica ou Instituto Bíblico. Não diz que tem de ser uma pessoa de recursos ou de influência social.

Pode haver deformidade no seu físico ou ser pobre e de humilde condição, isso não impede que seja um ancião na Igreja de Deus. Meditemos nisto seriamente.

Sem dúvida que um dos maiores males da Igreja nos nossos dias é o reconhecimento de anciãos sem as indispensáveis qualificações espirituais. Porque um crente tem negócio florescente, é elevado a um lugar de responsabilidade na Igreja, apesar da sua pouca ou nenhuma espiritualidade. Talvez assim não haja – falta daquilo que o dinheiro pode comprar, mas faltará o, principal que é o poder espiritual.

IV – DEVERES DOS ANCIÃOS

A) Em primeiro lugar devem apascentar o rebanho de Deus (1 Pedro 5:2; – Actos 20:28). Eles fazem isto pelo ministério da Palavra de Deus. Isto não implica necessariamente ministério público, mas pode ser particular

B) Em segundo lugar, devem fazer o trabalho dos que cuidam do rebanho, segundo Pedro nos diz. Que significa isto? O resto do versículo explica o que não significa, e também o que significa:

  1. Não significa serviço imposto. Deve ser espontâneo.
  2. Não é trabalho com fins lucrativos, "nem por torpe ganância", mas de boa vontade.
  3. Não significa dominar sobre a herança de Deus. O ancião não é um ditador, nem um capataz.
  4. Mas é um exemplo do rebanho. O ancião deve lembrar-se que o Bom Pastor não impele as suas ovelhas – guia-as. Todo o "sub-pastor" devia fazer o mesmo. Do ponto de vista humano, parece mais fácil centralizar a autoridade para facilitar a emissão de ordens e requerer obediência. Mas esse não é o propósito de Deus. Os anciãos conseguem superintender a Igreja convenientemente, tornando-se exemplos do rebanho.

C) Dum modo real os anciãos são o exemplo da Igreja. Onde houver anciãos piedosos, que dêem ao Senhor o primeiro lugar nas suas vidas e que irradiem a graça do Senhor, aí podemos ver uma Igreja espiritual e próspera; por outro lado, onde os anciãos se deixam dominar pelas coisas, do mundo e por outros interesses materiais, a ponto de lhes faltar tempo para ler a Palavra de Deus e orar, é de esperar que haja frieza e fraqueza no rebanho.

D) Os anciãos também são exortados a suportar os fracos – "Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber" (Actos 20 :35). O contexto implica que deviam estar prontos a ajudar os que estavam passando necessidades. E interessante notar aqui que, em vez dos anciãos viverem do rebanho, são exortados a repartir com o rebanho.

E) Finalmente, os anciãos devem redarguir, repreender e exortar (II Tm 4:2; Tito 1:13; 2:15). Tudo o que for contrário ã fé deve ser repreendido com toda a autoridade. Todos os que não suportam a sã doutrina, devem ser redarguidos e exortados. O ancião deve pugnar diligentemente pela Fé.

V – ATITUDE DA IGREJA PARA COM OS ANCIÃOS

Segundo lemos em 1 Timóteo 5:17,18, é evidente que alguns anciãos devem ser ajudados financeiramente pela Igreja. "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. Porque, diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi que debulha. E digno é o obreiro do seu salário ou recompensa. E igualmente claro nas Escrituras, que outros trabalhavam para assegurar o seu próprio sustento. Paulo é um exemplo notável disto (1 Co 4:12).

Além disso, um ancião não deve ser repreendido asperamente, mas exortado como a um pai (1 Tm 5:1). Os crentes não devem admitir acusações contra os anciãos, senão exclusivamente pela boca de duas ou três testemunhas (1 Tm 5:19).

Os anciãos devem ser lembrados, reconhecidos e obedecidos: "Tende-os em grande estima e amor por causa da sua obra" (1 Ts 5:13) "Lembrai-vos dos vossos pastores. que vos falaram a Palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente" (Hb 13:7-8)

VI – A RECOMPENSA

Finalmente, notemos a recompensa dos anciãos: "E, quando aparecer o Sumo-Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória" (1 Pedro 5:4).

William McDonald

"Cristo Amou a Igreja" | Tradução: Viriato D. Sobral (1961)

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