Assembleias de «Irmãos» em Portugal

História do Movimento de «Irmãos»

Eric Barker (1899-1989)

Eric BarkerFoi por volta das onze horas de domingo, dia nove de Julho (1989), que o Senhor nosso Deus foi servido de chamar à Sua Eterna Glória o Seu servo Eric Harold Barker, com a provecta idade de noventa anos.

O funeral, que saiu da Casa de Oração da Igreja da Foz do Douro, pelas 15,30 horas de segunda-feira, para o cemitério local, reuniu muitíssimos crentes e amigos. Presidiu à cerimónia o presbítero sr. Alberto Pina Leite, dirigindo os cânticos e tecendo algumas belas considerações sobre o finado. Em seguida foi lida uma passagem bíblica em Apocalipse 22, pelo Paulo Barker – o filho mais novo -; a oração foi feita pelo missionário sr. Alfredo Poland, que se deslocou de Lisboa, e a mensagem bíblica foi apresentada pelo sr. Frank Smith – missionário inglês, há muitos anos radicado em Coimbra. Este amado irmão, na sua mensagem recordou alguns episódios da vida do irmão Barker e frisou que o finado começou e acabou bem a sua carreira; que é bom começar bem, mas muito melhor acabar bem. O irmão Catarino, de Valadares, concluiu com oração. Fomos depois para o cemitério da Foz e ali presidiu o irmão Álvaro Ribeiro e o irmão Pontes, de Alumiara, apresentou uma mensagem de pregação do Evangelho, recordando ainda a sua conversão 50 anos atrás, mencionando o irmão José Maria Azevedo que foi o primeiro a falar-lhe de Cristo e a convida-lo a ouvir o Evangelho, e o irmão Barker que considerou seu pai espiritual e de quem muito aprendeu ao longo de todos estes anos. Finalmente falou o irmão Orlando luz, que representava a Comunhão das Igrejas do Sul e que comparou o irmão Barker a Barnabé, o filho da consolação, pois também ajudou a muitos, inclusivamente um irmão desviado e que já ninguém nada esperava dele, mas que finalmente se tomou num verdadeiro servo do Senhor, indo mais tarde como missionário para Moçambique e a quem o Senhor maravilhosamente usou.

Pediram-me para que escrevesse algo sobre a vida deste grande pioneiro do Evangelho entre nós. Confesso não ser a pessoa mais indicada, até porque desconheço muito do seu ministério, principalmente na primeira metade da sua vida em Portugal. Outros, talvez, depois de lerem o que escrevo poderão preencher as minhas lacunas, acrescentando mais detalhes dos seus próprios conhecimentos, para assim termos uma visão mais completa e perfeita do que foi a vida e o ministério deste fiel e dedicado Servo do Senhor – o Irmão Eric Barker.

Foi em 1920, depois de servir a Marinha Inglesa na 1ª Guerra Mundial, que Eric Barker deixou o seu país e veio para Portugal. Eis como ele contava esta sua importante experiência:

"'Desde muito jovem que senti o desejo de pregar o Evangelho e ser um dia missionário em África. Entretanto, meu pai visitou a Espanha e Portugal e quando regressou a Inglaterra começou a falar aos irmãos e nas igrejas da grande necessidade de obreiros nestes dois países. Eu, por esse tempo tinha deixado a Marinha, onde tive maravilhosas manifestações do poder e da bondade do Senhor para comigo, consegui um bom emprego num Banco, em Londres, mas ao ouvir das grandes necessidades de Portugal sem conhecer a língua e sem ter qualquer promessa de alguém para o meu sustento; apenas um irmão que me convidou a tomar chá em sua casa me deu uma oferta, que chegou para a viagem e pouco mais".

Em Portugal conheceu o irmão José Ilídio Freire e com ele começou por aprender a nossa língua e a visitar alguns lugares e trabalhos já estabelecidos. Mais tarde adquiriram uma carroça alentejana, puxada por um macho e visitaram assim muitas terras portuguesas, distribuindo folhetos, evangelhos, Novos Testamentos e Bíblias, parando nas feiras, onde muita gente os escutava e levava a Palavra escrita para suas casas.

Pelos anos 30, o irmão Barker sentiu que devia vir para o norte. Havia em Ílhavo um irmão bastante doente, que pediu para Lisboa a visita de algum irmão, pois naquele tempo não havia praticamente igrejas, nem crentes por aquelas redondezas. O irmão Barker fixou residência em Cacia, onde passou a visitar as terras próximas, continuando a espalhar a preciosa semente da Palavra de Deus e pregando onde podia e havia interesse. Foi assim que visitou Ílhavo, Aveiro, Albergaria-a-velha, Ovar, etc. Ele gostava muito de contar um curioso debate que teve na praia do Furadouro, com um grupo de seminaristas católicos.

Já com mulher e seis filhos, deixa Cacia e vem residir na Foz do Douro, Porto. Aqui, na Rua das Motas, arrenda uma casa onde passa a viver no lº andar e adapta o rés do chão a um bom salão de cultos.

Em 1941, no auge da 2ª Grande Guerra Mundial, despede-se da sua família, que embarca num navio de passageiros para Inglaterra. Em pleno mar este navio é torpedeado por um submarino alemão e vai para o fundo. Quando este irmão recebe a triste notícia da morte de todos os seus queridos, não hesita em pregar naquela mesma noite e, referindo-se ao triste acontecimento, diz: "Todos os meus queridos já chegaram ao lar... Celestial!"' Nunca se deixou abater por esta tão dura prova; os crentes daquele tempo afirmavam que nunca o viram desanimado, ou a derramar alguma lágrima em público, embora o fizesse no seu quarto e a sós com o seu Senhor.

É neste período que desenvolve um trabalho profícuo. A época é de grande crise internacional. Há no nosso país falta de trabalho e racionamento dos alimentos mais necessários, tais como, o pão, as batatas, o arroz, o azeite e o açúcar. O catolicismo romano exercia de grande influência sobre as autoridades e patrões. Qualquer operário, trabalhador ou empregado, se deixasse a igreja católica estava sujeito a perder o emprego e a ser alcunhado de comunista, o que equivaleria a não ter possibilidades de arranjar trabalho.

Ora, o nosso irmão Barker dedica-se de alma e coração á pregação do Evangelho em qualquer lugar possível, mesmo desafiando as leis e as autoridades. Recordamos Alumiara, Valadares, Vilar do Paraíso, Madalena, Coimbra, S. Mamede de Infesta e Ponte da Pedra. Hoje existem igrejas estabelecidas em alguns destes lugares.

Gostaria de relatar um pouco mais sobre Valadares, pois foi ali que eu ouvi pela 1ª vez o Evangelho. Vinha o irmão Barker de comboio, acompanhado de irmãos da Foz e Alumiara e, ao desembarcarem nesta estação, reuniam-se no referido Largo, ao ar livre, cantando alguns coros e hinos, orando e alguns testemunhando da sua fé e de como o Senhor os salvou. Não sei ao certo por quanto tempo ali se reuniram (um ano, mais?), mas sei que só acabaram de se reunir quando a isso foram obrigados pelas autoridades. Foi numa tarde de domingo (eu estava lá) quando chegou um jipe da policia do Porto e o chefe ordenou que toda a gente dispersasse. Um irmão o José Pereira dos Santos, ao caminhar, começou a cantar o belo hino: "Graças sejam dadas a Deus..." e o chefe gritou aos guardas: "prendam esse homem. Dois guardas imediatamente o prenderam, dando4he umas cassetadas, meteram-no no jipe e levaram-no para o Aljube do Porto, onde aquele irmão passou a noite, tendo o acusado de desobediência ás autoridades. O chefe da Policia ainda disse: "Vocês estão proibidos pela Lei de voltarem a reunir-se aqui; se quiserem arranjem um salão." Foi então que um homem ali presente se manifestou, prometendo fazer ele um pequeno salão no seu terreno. E assim o fez, passando os crentes a reunirem-se, desde então, nesse salão, construído pelo sr. Abílio Pinto, durante bastantes anos, até mudarem para o actual, que também foi propriedade deste irmão.

Havia um jovem dos mais ricos de Valadares, que passava aos domingos no seu carro pelo largo da Estação de Valadares, presenciando cheio de ódio a reunião dos crentes. Um dos seus amigos afirmava que ele chegou a dizer que era preciso vir aqui outra Inquisição para queimar vivos a todos aqueles protestantes, Eu não sei se ele realmente disse isso, mas uma coisa sei; é que pouco tempo depois ele foi surpreendido por uma doença terrível e desconhecida dos médicos. Posso afirmar que até um médico chegou a ser chamado do estrangeiro, mas ninguém conseguiu valer-lhe. Depois de um prolongado e terrível sofrimento, a morte o transportou para a eternidade. A sua riqueza hoje já nem pertence á sua família.

Em 19460 irmão Barker casa pela segunda vez e o Senhor concede-he mais cinco filhos deste matrimónio. O seu trabalho vai-se consolidando e vê-se agora rodeado de um bom número de colaboradores, a maior parte deles seus verdadeiros filhos espirituais. Começa por criar uma lista de pregadores, que ajudam, levando a preciosa mensagem do Evangelho ás várias igrejas. Passa a ser bem conhecido e muito respeitado, não somente por todas as igrejas dos chamados irmãos, como também por muitos obreiros e igrejas denominacionais. É um bom colaborador de todas as Convenções Beira-Vouga, nunca tendo faltado até que a saúde lho permitiu.

O nosso irmão Barker era, como todos os bons servos do Senhor, um homem com as suas limitações. As vezes quase que exigíamos dele o que humanamente falando é impossível. Reconhecemos que ele não tinha todos os dons. E quem é que os tem. Ora, tendo isto em conta, queríamos realçar a sua grande paixão pelos perdidos. Sempre o vimos pregando com todo o zelo e amor. Mesmo ultimamente criticado por alguns, pelo facto de já com poucas forças físicas teimar em ir ás quartas-feiras para uma artéria de grande movimento da cidade do Porto, ás vezes acompanhado de um, dois ou três irmãos, anunciando fielmente o Evangelho. Cremos mesmo que este era o seu grande dom. Foi por muitas razões um Servo fiel, grande defensor da Palavra de Deus. No seu funeral foi dito que ele começou bem e acabou bem a sua carreira; que é bom começar bem, mas muito melhor é acabar bem. Que saibamos todos seguir o seu exemplo.

Carlos Alves


A 23 de Janeiro de 1899 nasceu em Stounbridge, Inglaterra, um lindo bebé ao qual os seus pais deram o nome de Eric Harold Barker. Perante este nome não podemos ficar indiferentes, pois por detrás destas três palavras existe uma força, uma perseverança, um amor, uma fé que mexe com todos nós. Ele foi o segundo de quatro irmãos, dois rapazes e duas meninas, filhos de um homem, Harold P. Barker, servo de Deus dedicado que usou os seus dons anunciando o Evangelho em vários países da Europa e mesmo na América do Norte e escreveu vários livros, alguns dos quais mais tarde traduzidos para Português pelo seu filho. Podemos pois dizer que Eric nasceu num ambiente excepcional. No entanto ele não tinha a certeza da salvação. Um dia, tinha ele cerca de sete anos encontrou-se sozinho em casa. Seus pais tinham ido à reunião de oração e no seu quarto ele estava preocupado a pensar que se o Senhor voltasse a buscar os seus pais ele iria ficar ali só. Foi então que se ajoelhou e pediu ao Senhor para entrar no seu coração.

Logo a partir dai a sua fé começou a ser posta em acção. Pouco tempo depois quando ia com a mãe a uma reunião relativamente longe de sua casa e esta lhe disse que teriam de ir a pé, pois não tinha dinheiro, Eric perguntou: "Mas então Deus não nos pode dar o dinheiro?" A mãe, Jessie Barker, disse-lhe que sim, ele que Lhe pedisse, e assim na paragem do eléctrico Eric orou. Qual não foi a sua alegria quando abriu os olhos e viu ali perto no chão uma moeda suficiente para a viagem!

Assim começava a crescer a sua fé. Estudou depois até ao quinto ano. Muitas vezes nas férias, para ganhar algum dinheiro, levava turistas a passear de barco a remos ou à vela em Morcombe Bay. Aos dezasseis anos conseguiu um emprego num afamado Banco de Londres. Também por essa altura começou a desenvolver um apreciável trabalho na sua Igreja sendo então superintendente da Escola Dominical. O seu ministério não se confinou às quatro paredes e vários vezes pregou ao ar livre inclusivamente no famoso Hyde Park.

Aos dezoito anos entra na 1ª Guerra Mundial como voluntário, na Armada, ai permanecendo cerca de dois anos.

Uma vez, numa das muitas viagens que o seu navio fazia para proteger barcos de carga, aquele foi torpedeado pelo inimigo e começou a afundar-se. Os marinheiros tiveram ordem de saltar para os salva-vidas, mas quando chegou a sua vez, ele saltou mas... caiu na água pois já não estava láo salva-vidas. E naqueles momentos enquanto estava ali naquelas águas ele decidiu que se estava pronto a dar a sua vida pelo seu rei e seu pais muito mais deveria estar pronto a dedicar toda a sua vida ao seu Rei Jesus e sua Pátria Celestial. O Senhor o salvou, pois entretanto outro salva-vidas chegou e quando voltou a Inglaterra tinha este desejo bem firma no seu coração. Regressou ainda ao Banco onde trabalhou por algum tempo, mas em 1920, com apenas 21 anos decidiu partir para o campo missionário e graças a Deus porque o país atingido foi PORTUGAL.

Foi ainda por influência de seu pai que esta escolha aconteceu, pois este tinha estado cá e viu as grandes necessidades deste país. Depois de orarem viram claramente que o caminho era Portugal. Eric Barker não tinha dinheiro nem Sociedades Missionários para garantirem o seu sustento.

No final do Culto de despedida feito na sua Igreja um irmão idoso convidou-o para ir a sua casa e lá fez-lhe esta pergunta: "Com o que é que estás a contar para o teu sustento em Portugal?". Resposta simples do nosso irmão: "Com a fidelidade do Senhor!" Ao separarem-se aquele irmão deu-lhe um cheque de dez libras que foi o suficiente para a viagem e pouco mais. Assim chegou à nossa terra Eric Barker.

Convém nesta altura fazer um parêntesis para dizer que o trabalho evangélico das nossas assembleias estava nesta altura resumido a Lisboa, Amoreiras e St. Catarina, um esboço de início em Coimbra e alguns crentes em Aveiro. Hoje, graças a Deus, e em boa parte pela instrumentalidade do seu servo Barker, existem dezenas de Igrejas e lugares de culto. A Deus toda a glória!

A sua primeira paragem "forçada" em Portugal foi na Pampilhosa, (já naquela altura os ferroviários faziam greves), de onde seguiu depois para Coimbra. Aí permaneceu algumas semanas em casa do Dr. Opie, que era professor na Universidade. No fim do ano mais propriamente no Natal, John Opie quis ir a Lisboa passar essa quadra com o irmão George Howes. Eric acompanha-o e é nessa altura que conhece também José Ilídio Freire que viria a ser o seu companheiro de muitas jornadas.

Com ele e também com a família Howes, começa a praticar o português e em Fevereiro de 1921, três meses apenas após a sua chegada, o Senhor o usa na sua primeira mensagem na nossa língua na Igreja de Sta. Catarina. Foi o início duma gloriosa epopeia que só terminou quando o nosso Pai o chamou à sua presença no dia 9 de Julho 1989.

Depois de St. catarina foi a vez de Almada e outras local idades ao redor de Lisboa como Alhandra, Caneças e Vila Franca de Xira, sempre acompanhado pelo irmão José Ilídio Freire. Foi então que do Norte vem um apelo. Um idoso irmão, sr. Malaco estava às portas da morte e era necessário alguém para dirigir o seu funeral. Eric Barker é enviado. Quando chegou à Gafanha, com a alegria da sua chegada, o irmão Malaco, deu graças a Deus porque Ele tinha respondido à sua oração de mandar um missionário para a sua terra e acabou por melhorar e viver ainda por mais alguns anos! Começaram-se então a fazer reuniões no pátio deste irmão e também na casa de um guarda fiscal convertido, Luís Nunes Sapateiro, nome inscrito no nosso hinário como autor de alguns hinos. Assim o trabalho começou a alargar-se até Ilhavo e também a outras localidades como Palhaça onde o Evangelho era gado ao ar livre depois de serem feitas grandes caminhadas para chegar a estes lugares. Eric Barker aluga então uma pequena casa na rua principal de Ilhavo e volta a Inglaterra para contrair matrimónio. Estávamos em Janeiro de 1923.

A família Clayton que entretanto tinha chegado para ajudar na obra aluga uma casa em Cacia. Eric já casado vem para ali fazendo reuniões ali, e também em Aveiro, Quinta do Loureiro, Albergaria-a-Velha e S. Marcos. Os contactos com Lisboa não estavam no entanto perdidos e o irmão Ernest Holden, que estava com responsabilidade na área de Almada, teve uma ideia. Com a ajuda de alguns irmãos comprou um carro alentejano e a respectiva mula, para ser usado pelo irmão José Ilídio Freire e irmão Barker. E o primeiro "raid-todo o terreno" evangélico aconteceu. Partindo de Lisboa estes dois irmãos, dormindo e cozinhando no carro, entenda-se carroça, distribuíram milhares de folhetos, venderam centenas de Bíblias, testemunharam em dezenas de povoações, e depois de mais de vinte dias de viagem, chegaram a Cacia, onde o irmão Barker vivia. O irmão Freire regressa a Lisboa de comboio, deixando a carroça com o irmão Barker que o usa assiduamente em feiras e aldeias naquelas redondezas.

Por esta altura Eric visita um jovem, acerca de quem tinha recebido notícias directamente dos Estados Unidos pela mão de Arthur Ingleby. Esse jovem era Viriato Dias Sobral que depois também dedicou a sua vida ao serviço do Senhor. Também nessa altura chega a Portugal Frank Smith que se estabeleceu primeiramente em Estarreja. Foi o irmão Barker que celebrou a cerimónia de casamento deste irmão com Dorothy, sua primeira esposa. Bom, em Cacia a família crescia. Harold foi o primeiro rapaz, a Kathleen a primeira menina, dum total de oito irmãos. Também a família de Deus ia aumentando, e este caso maravilhoso vai ser contado pelo próprio. "Há muitos muitos anos, talvez em 1928 passava eu qual filho pródigo, por Cacia e batia numa porta. Aí morava Eric Barker que eu só conhecia de nome através do meu irmão. Cansado, depois de uma grande viagem, qual judeu errante, ele abriu-me a sua porta de casa, este homem que eu amava... Depois de Marques Pereira e meu irmão José, foi um homem a quem amava e me amava. Abriu ele a porta não somente a mim, mas sobretudo abriu a porta também ao Evangelho para milhares em Moçambique..." Estas são as palavras do nosso irmão Nascimento de Jesus Freire. "...Recordo uma viagem que juntamente com o ancião Fragoso, das Amoreiras, fizemos até Lisboa, vendendo milhares de Escrituras e pregando o Evangelho...

Estamos no inicio dos anos trinta. Eric viaja agora todos os dias de comboio até ao Porto em virtude da sua nova actividade secular como contabilista numa famosa firma inglesa No entanto à noite todo o seu tempo era ocupado com reuniões tanto em Cacia como em todas as áreas vizinhas. Mas com as crianças a crescer, surgiu também a necessidade de irem à escola, e o colégio inglês ficava no Porto... Deus conhece todas as necessidades dos seus filhos e assim providencia uma casa na Tr. do Pinheiro Manso, bem perto do seu emprego e não muito longe do Colégio Inglês. Aqui vai surgir o embrião da futura Igreja da Foz e também se vai abrir a porta para toda uma vasta metrópole envolvendo Porto e seus arredores.

Mas não foi por muito tempo que a família Barker viveu nesta casa. O Senhor os conduziu para a zona da Foz. Aqui vai passara ser o "quartel general" de toda a sua acção missionária até ao dia em que o Senhor o chamou à Sua Divina presença. De uma forma maravilhosa aparece o sítio ideal para o início dos cultos. Era a sede de um clube, mas este já devia vários meses de renda ao senhorio e foi o próprio senhorio que propôs o arrendamento ao irmão Barker. Estamos no inicio do ano de 1935.

Embora não se saiba exactamente a data da primeira reunião o aniversário é comemorado na última semana de Fevereiro e, isto sim está registado, a data da primeira escola dominical é 17 de Março de 1935. Os seus filhos são os primeiros alunos mas havia já um bom grupo. O trabalho ia crescendo não só na zona da Foz, mas também à margem sul do Douro. Havia ainda uma boa relação com outros trabalhos de outras denominações, caso da Igreja Lusitana e Igreja Metodista, onde pelo menos uma vez por mês o irmão Barker ia fazer estudos bíblicos. Tempos diferentes... e muitas almas eram salvas.

"Foi por instrumentalidade deste irmão que aceitei a Jesus Cristo, precisamente há 50 anos, pois foi em 1939 em casa da querida irmã D. Madalena Monteiro, cuja conversão tinha constituído um grande acontecimento para a época. Ela pós a sua casa ao dispor para serem anunciadas as Boas Novas da Salvação, casa que pela mercê do Senhor nós hoje habitamos, e onde muitos encontraram o Salvador. Mas como então houve uma denúncia à PIDE, dizendo que aqui se faziam reuniões políticas, seu marido avisado mandou-as suspender e fomos para casa do irmão António Monteiro, já tomando então a forma de Igreja, pastoreada pelo Sr. Barker, embrião da futura Igreja de Alumiara". Estas são palavras do irmão José Maria Azevedo, um crente da velha guarda que recorda assim o tempo da sua conversão.

Aos domingos depois de Alumiara,os crentes seguiam para Vilar do Paraíso e Valadares, onde pregavam ao ar livre. Também havia música, violino, bandolim e violão, que alguns irmãos tocavam incluindo o irmão Barker, que era um especialista em bandolim. Foram muitas vezes insultados, perseguidos, apedrejados e mesmo ameaçados de prisão, mas muitas almas eram salvas domingo após domingo e os núcleos para a formação de novas igrejas naquelas áreas estavam formados. Os tempos eram difíceis. A II Guerra Mundial estava ao rubro e o consulado britânico em Portugal aconselhou todos os cidadãos ingleses a retirarem-se para o seu país. Assim toda a Sua família, esposa, filhos, sogro, irmã e sobrinhas partiram no barco posto à disposição pelo consulado. Depois de vários dias de viagem por uma rota supostamente mais segura e quando já se encontrava peito da costa da Irlanda, o barco foi torpeado por um navio alemão e afundou-se, levando consigo toda esta família. Rude golpe para qualquer pessoa. Mas Eric não era uma pessoa qualquer. No mesmo dia em que recebeu esta notícia, um Domingo, o irmão Barker veio ao culto de Santa Ceia e demonstrando uma coragem, uma fé, uma segurança inabalável, anunciou que toda a sua família já tinha chegado ao destino final, a presença do Senhor!

E quando, humanamente falando, poderíamos esperar um homem abatido por este trágico acontecimento, eis que o Senhor o usa ainda mais poderosamente e passa a ser o pregador mais desejado em Portugal.

"Foi em Julho de 1942 num Domingo à tarde que aceitei Cristo como meu Senhor e Salvador, pela pregação do irmão Barker ao ar livre num pátio de uma tia do irmão José Maria, O texto bíblico usado pelo Espírito Santo para a minha conversão e novo nascimento foi S. João 5:24. A partir dai fiquei ligado à Igreja de Alumiara, sob a liderança do irmão Barker...". Palavras do irmão José Augusto Pontes que como lemos aceitou o Senhor nessa época.

A tragédia no entanto ainda continuava viva em muitos corações, especialmente daqueles que mais de peito com eles conviviam, e quando o irmão Barker ficou preso no seu leito, retido por uma enfermidade, toda a igreja se envolveu numa forte oração por este irmão. A oração de um justo pode muito em seus efeitos, quanto mais a de tantos justos, e passado pouco tempo realizou-se na ACM uma das mais maravilhosas reuniões lá realizadas.

Crentes de todas as denominações superlotaram o saião para, com a sua presença, lhe testemunhar a sua simpatia, num desejo de ajudar a suavizar a sua dor e confortá-lo. Porém o que aconteceu é que quem ali esteve é que saiu consolado e conformado e também maravilhado por terem ouvido da boca de um verdadeiro servo de Deus, (que se submete à sua vontade), confessar que por tudo glorificava o nome de Deus-Todo-Poderoso, e terminar com as palavras de Paulo em Filip. 4; 13- "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". E assim mesmo sem a família este irmão dispôs-se a ajudar com um prato de sopa todos os que fossem a sua casa, pois devido à guerra havia muita fome e miséria. Recolheu também em sua casa algumas crianças que eram tratadas como se fossem seus fhhos, e podemos dizer, sem favor, que mais de metade do seu salário, enquanto funcionário da casa Graham, era distribuído por famílias carecidas, suprindo também muitas necessidades de igrejas locais.

Muitos homens da zona da Foz, recordam ainda hoje essa sopinha, e também a "terça-feira da rapaziada" onde todos os rapazes da rua eram convidados a entrar no salão e para além de uma chávena de café quente e algumas brincadeiras, ouvirem acerca do Bom Pastor. Um trabalho com uma forte componente social mas que deu os seus frutos espirituais.

"Para além disso, era, quanto a mim, um dos melhores exegetas bíblicos nos estudos versículo por versículo, com quem muito aprendi ao longo de décadas, em que semanalmente vinha dirigir o estudo Bíblico, às sextas-feiras, em Alumiara", afirmação feita pelo irmão Pontes e de certo corroborada por muitos outros irmãos. De referir que a viagem da Foz à Alumiara era feita de caíque na travessia do rio Douro e o resto a pé quer chovesse ou fizesse frio. Quando o rigor do temporal impedia os barqueiros de atravessar o rio, ia de eléctrico até Coimbrões e depois a pé, ou fazendo mesmo todo o trajecto a pé, passando pelo tabuleiro inferior da ponte de D. Luís. Uma vez, apenas tinha o dinheiro suficiente para a travessia para lá, mas quando chegou à Alumiara um crente ofereceu-lhe 25 tostões, sem que ninguém tivesse dito nada, dinheiro esse que na altura era suficiente para o regresso e ainda para mais umas idas...

Em 1946 Eric Barker volta a Inglaterra. A sua mãe tivera uma trombose e passava mal. Nessa altura foi convidado para pregar em muitas igrejas, e especialmente em Southampton, aonde se deslocava de comboio. Foi numa dessas viagens que conheceu uma interessante professora de um grupo de meninas. Ela era prima de Cecil Scott, que tinha sido missionário em Angola e que depois veio para Lisboa, e tinha o seu coração voltado para o campo missionário. Pensava que talvez a China fosse o seu destino. Mas depois de ter recebido uma carta de Eric convidando-a a vir para Portugal. compreeendeu que essa era a vontade do Senhor, e assim ainda nesse ano contraem matrimónio e vêm trabalhar em Portugal. O trabalho evangélico continuava avançar agora também para norte. Havia já um salão na Ponte da Pedra, e em breve seriam iniciados trabalhos em S. Mamede de Infesta, Gueifães e Sta Cruz do Bispo. Também dava toda a colaboração a outros trabalhos já exisitentes, como S. Pedro da Cova, com os mineiros, Leça e Alto da Maia.

Deste novo casamento Eric com Beryl Scott, nascem mais cinco filhos e... alguns netos...

Para as suas deslocações aos diferentes lugares o irmão Barker dispunha agora de uma bicicleta motorizada, que ele próprio adaptou de uma bicicleta da sua esposa, mas devido aos muitos trilhos dos eléctricos existentes e também ao mau piso, muitas vezes chegava a casa com a roupa num "mísero estado" e a esposa é que tinha de tratar de coser as calças... Só muito mais tarde ou seja em 1957 é que o Senhor lhe concedeu um carro. Mas já era usado e estava muito velhote. Novas aventuras surgem e também novas provas de fé.

Jessica, a quarta filha do seu segundo matrimónio tinha apenas dois anos de idade, mas já há perto de seis que a família Barker não visitava a Inglaterra por falta de meios. Porém com a chegada do velho "Austin" que o Senhor lhes tinha dado parecia abrirem-se as portas! Mas a sua esposa estava um pouco céptica em relação a isso. Ir a Inglaterra sim, mas naquele carro tão velho... De barco era mais razoável, mas era mais caro e não tinham dinheiro suficiente. E, conta-nos a nossa irmã D. Beryl: "Orei muito sobre este assunto. Passei mesmo um Domingo nesta luta, e à noite, no culto, alguém escolheu aquele hino que no novo hinário tem o nº 317- Oh! Aleluia, sim é céu... Por terra ou mar ou onde for... – e Deus fez-me ver que tanto fazia ir de carro ou de barco porque Ele estava connosco. Quando o meu marido disse na Garagem que ia a Inglaterra no carro, os homens riram-se: "O Sr. Barker isso não passa de Espanha!"

Partiram. Os quatro filhos atrás misturados com a bagagem que havia por todo o lado. Até aos Pirinéus tiveram três furos. Era enquanto o carro estava a ser reparado que tiravam a velha máquina a petróleo e preparavam alguma coisa para comer, pois enquanto o carro andava era preciso aproveitar. Até que em França perto de Chartres: "Foi numa curva, o carro fez um ruído muito esquisito, aninhou-se para o lado direito e não andou mais. O meu marido foi procurar uma oficina enquanto nós ficamos num parque ali perto. Demorou todo o dia. Por fim voltou e disse: "Vamos lá, já podemos continuar!" e contou o que se tinha passado. Os homens da primeira oficina que encontrou levaram o carro a uma outra especializada em Austin's e lá o gerente depois de ver o problema perguntou: – O sr. quer que mande o carro para Portugal ou para Inglaterra? – Não, eu quero é seguir viagem. Eu sou missionário e estou aí com a minha esposa e filhos e queremos ir a Inglaterra.

Missionário? E com a esposa! Então não é católico? – Não, não! Sou evangélico! respondeu ele. -Mas isso então faz toda a diferença! E aquele homem deu ordens aos seus empregados para fazerem tudo o que fosse possível para por o velho automóvel a funcionar. Demorou todo o dia. Estávamos preocupados porque tínhamos pouco dinheiro, mas francos franceses ainda menos. Quando ficou pronto e o meu marido perguntou quanto era, o homem da, oficina disse: "Não é nada... E que o meu pai é Pastor Baptista em Paris e eu tenho muita admiração pela sua obra, e quando disse que era Evangélico... tudo mudou." A viagem prosseguiu e lá chegamos ao destino. Quando um jovem mecânico crente lá em Inglaterra viu o carro disse: "Eu não toco sequer num parafuso porque senão cai tudo!" Agora pensemos! Com tantas centenas de kms de viagem foi precisamente junto a uma garagem de família crente que o automóvel parou! Acaso? Não, certamente, Deus é continuamente fiel nas suas promessas! Ele honra a fé de seus filhos, Aleluia!

Acresce dizer que os irmãos de Inglaterra ofereceram um motor novo para o carro o que permitiu que a viagem de regresso fosse bem menos atribulada. E o trabalhe em Portugal foi prosseguindo. Já não com a mesma força expansiva como anteriormente, embora esse continuasse a ser o desejo da família Barker (pensaram mesmo em arranjar uma autocaravana para ir pregar o Evangelho aonde ainda ninguém tivesse ido), mas fortalecendo a obra já começada. Milhares de estudos bíblicos em variadíssimas Igrejas ensinaram a sã doutrina, com conhecimento profundíssimo de toda a Bíblia. Isto também como consequência de ter posto a Bíblia de Almeida na nova ortografia para a Sociedade Bíblica, o que claro, o obrigou a lê-la muitas vezes.

O seu apoio a movimentos de Evangelização de caracter indenominacional, Campanhas Evangelísticas na A.C.M.e outros lugares, foi sempre notória. Mas também o seu apoio a missionários noutros lugares e países era bem eficaz. Senão ouçamos mais este testemunho do nosso irmão Nascimento Freire: "Morando na cidade da Beira, com cerca de três mil africanos à minha responsabilidade, fuí convidado a ir a Lourenço Marques pregar á Igreja que eu tinha aberto juntamente com outros irmãos. E fui... Ora acontecia que o meu fato não estava assim muito "católico" e antes da reunião passei por uma loja de pronto a vestir onde vi um fato mesmo á medida. E disse para os meus botões: "Se tivesse dinheiro comprava este fato, pois o meu já não está decente". Então lembrei-me que o Eric por vezes me ajudava com um cheque... E se eu fosse á antiga caixa postal n" 1011? Quem sabe?... Como tinha a antiga chave na minha algibeira, dirigi-me à caixa. Abri-a. E lá estava, um cheque de Eric Barker!! Aleluia! O Senhor permitiu tal! E comprei o fato. Ah! Irmãos! Se houvessem mais destes corações nas nossas Assembleias! Apenas duas igrejas se lembravam das necessidades de N. Freire em Moçambique: as Amoreiras e a Foz do Douro." Este foi o depoimento vivo do nosso amado irmão Nascimento de Jesus Freire que conta também que o último encontro que teve com Eric Barker foi na Convenção em Sangalhos. A próxima será na Glória. "Lá estaremos os dois" afirmou.

Depois de cinquenta anos de intenso ministério em Portugal, altura em que vários irmãos organizaram uma justa homenagem a Eric Barker, seria de esperar um certo e merecido descanso, uma "reforma". Puro engano.

Com a nova abertura surgida pela Revolução e após a visita do barco LOGOS, eis que Eric vai para a rua anunciar as boas novas. Juntamente com vários irmãos, (não muitos diga-se de passagem) distribuindo milhares de folhetos vendendo dezenas de Bíblias e desta forma várias almas foram salvas. Um servo de Deus não pode parar e o nosso irmão Barker foi bem o exemplo disso.

Já com setenta e muitos anos continuava a ir a Alumiara, Valadares, Belomonte,Gueifães e muitos outros lugares anunciando a Palavra e fazendo estudos Bíblicos. São centenas os seus filhos espirituais!

Ele gostava do convívio e da comunhão. Dificilmente faltava aos encontros de anciãos na Livraria Esperança. Sempre estimulou os jovens. Ele dizia: "Aos dezasseis anos eu era superintendente da Escola Dominical e pregava ao ar livre. Vocês têm que ir para a frente." Tinha sempre uma palavra de apreço por aquilo que os mais novos faziam, um sorriso no seu rosto e muito amor no seu coração.

Já com 89 anos participou em Esmoriz numa Conferência Missionária organizada pelos JIN, dando ali poderoso testemunho acerca daquilo que o Senhor tinha feito por seu intermédio e animando os mais jovens a confiar sem reservas no Senhor Jesus pois Ele é fiel!!

A comemoração do seu nonagésimo aniversário foi digamos a última grande "actividade" em que participou. Pouco depois os seus problemas de saúde começaram a complicar-se. As dores eram fortes, o sofrimento era muito mas o seu sorriso mantinha-se pois a sua confiança estava posta no Senhor Todo Poderoso. ERIC sabia que muito em breve iria estar bem perto d'ELE! O Senhor chamou-o à sua Divina Presença em Julho de 89.

Ficou a sua obra, o seu testemunho. Um nome, uma vida, um exemplo de fé!

Estamos nós seguindo esse exemplo? O irmão Barker confiava que o Senhor iria voltar antes da sua partida. Tal não aconteceu, mas mais do que nunca Ele está ás portas! Talvez hoje!

Paulo Pina Leite

Refrigério Nº 15 a 18 (1989)

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