Assembleias de «Irmãos» em Portugal

História do Movimento de «Irmãos»

Frank Smith (1911-2003)

AUTOBIOGRAFIA

Frank e Beatriz Smith

Frank Smith – Um Obreiro Dedicado
Infância e Juventude

Cresci num lar ligado à Igreja Anglicana e frequentei a Escola Dominical. Na Escola Primária e Liceu tinha aulas Bíblicas diariamente, com exames no fim de cada ano. Adquiri por isso um bom conhecimento da Palavra de Deus sem porém ter tido ainda um encontro pessoal com o Salvador.

Depois de um curso na Escola de Aviação em que éramos obrigados a assistir aos cultos todos os Domingos, comecei a servir como Radio Telegrafista numa Base Aérea, continuando com uma vida mundana. Deus controla o nosso destino mesmo antes de O conhecermos e assim de repente um colega recebe ordens para ir para uma Base onde se formavam esquadrilhas novas que iriam servir no Porta-Aviões "Furious" .

Ele tinha um horror pelo mar e ficou desesperado. Num impulso talvez por pena sugeri que trocássemos. A troca foi autorizada e fui para a tal Base, onde havia de ter um encontro com o Salvador.

Um ex-missionário que havia trabalhado na Índia e que havia regressado devido à falta de saúde de sua esposa, dedicara-se ao trabalho entre os soldados e aviadores e foi instrumento precioso para levar muitos aos pés do Salvador. Semeou logo nos corações dos novos convertidos a necessidade dos países sem Cristo.

Dedicação ao Senhor

Passei dois anos no Porta-Aviões e depois fui transferido para perto de uma vila onde havia uma Assembleia com muita actividade ao Ar Livre e onde aprendi muito ao acompanhar um dos Anciãos, nas suas deslocações para Pregar o Evangelho.

Daí o Senhor abriu o Caminho para que eu saísse da Aviação. Estávamos em 1935. Com outro jovem que mais tarde foi para a Nigéria resolvemos passar uns meses pregando o Evangelho ao Ar Livre numa área onde éramos conhecidos, com o alvo de PROVAR O SENHOR numa vida absolutamente dependentes d' Ele. Provámos que Ele é o Deus que cuida dos passarinhos e muito mais dos que Ele comprou por tão grande preço. Através de um Irmão que havia estado no Norte de Portugal, o Senhor colocou-me em contacto com o saudoso Irmão Viriato Sobral. Veio um convite para nos juntarmos em casa dos pais dele em Souto da Branca.

Chegada a Portugal

Cheguei em Maio de 1936. Estive 9 meses com ele aprendendo a língua e acompanhando-o a Palhal, Senhorinha, Ílhavo e Albergaria a Velha onde já havia um grupo de crentes. No ano seguinte veio, de Inglaterra, a minha noiva, Dorothy e depois de nos casarmos fomos viver para Estarreja, onde Viriato nos acompanhou e passado pouco tempo foi aberto um Salão para a pregação do Evangelho , tudo isto no meio de muita Perseguição.

Ministério em Coimbra

Depois do casamento de Viriato com Rute, nós sentimos ser da vontade de Deus aceitar o convite do Sr João Opie e mudámos para Coimbra. Estávamos em 1939. Chegámos em Março e o Dr. João Opie pediu para ir viver connosco. Em Junho teve que ir até Inglaterra e três dias depois o Senhor chamou-o para Si.

Estávamos em Coimbra sozinhos, com uma Sala de Cultos num primeiro andar na Rua Sargento-Mor, com um pequeno grupo de crentes: o casal Carapêto, um irmão chamado Salgado e ainda mais tarde o casal Simões. Começaram a frequentar as reuniões ao pais de João Varandas, que se converteu passado algum tempo. Foi assim o princípio do trabalho em Coimbra e arredores.

Por ser pequena a sala na Rua Sargento-Mor, e ser num primeiro andar, mudamos em Julho para Avenida Sá da Bandeira. Os primeiros meses foram muito difíceis, mas o Senhor começou a trabalhar nos corações, e o número do salvos cresceu muito. Um irmão Brasileiro que já tinha trabalhado em Fala, ao ser obrigado a regressar ao Brasil ofereceu-nos a casa para continuarmos o Trabalho. Não tínhamos pessoas interessadas do local, mas vinham pessoas de Casas Novas estas e logo nos convidaram a mudar para ali. O Irmão José Seguro converteu-se, e pouco depois já o Senhor o usava.

Expansão do Trabalho nos Arredores de Coimbra

Um grupo de crentes a viver em Canas de Semide e Casa Velha (Soure) pediu-nos auxílio. Pessoas de Tovim começaram assistir às reuniões em Coimbra e solicitam-nos que comecemos cultos alí. Na primeira Reunião uma menina possessa de um espírito maligno foi libertada (vivem presentemente em Corroios).

Neste tempo (anos de ditadura e guerra) não eram permitidas reuniões ao ar ivre, de modo que, para evangelizar tínhamos de abrir salas de culto em várias áreas da cidade.

Em Outubro de 1941 abrimos uma sala de cultos em Casal de Ferrão (Estação Velha) e em Julho de 1944 uma outra no Calhabé. Em Dezembro de 1945 foi aberta uma casa de cultos em Taveiro. Em Fevereiro de 1946 principiámos cultos em S. João do Campo, onde o padre mandou tocar o sino a rebate, e a casa foi apedrejada. Teve de intervir a Guarda Republicana. Neste mesmo ano fomos convidados a pregar em Preza, um lugar ao Sul de Condeixa .

Obreiros Portugueses no Ministério

Em 1946, a Igreja em Coimbra separou o irmão João Figueiredo e sua esposa Lucinda para a Obra e estes foram morar para Soure. Tanto a Irmã Lucinda como os Irmãos João e Olinda Varandas que foram separados em 1956 podem contar melhor o que sucedeu naquelas localidades. Na área de Vila Nova de Ceira os Irmãos Figueiredo, e na área de Mealhada os Irmãos Varandas trabalharam depois.

Nos anos idos de 1940 até 1946 o Senhor tinha levantado um bom grupo de Irmãos que dedicavam os seus tempos livres e principalmente os Domingos à Obra de Evangelização, e sem os quais não teria sido possível realizar esta Obra de Deus.

Frank Smith
07.04.1911 – 12.12.2003

Refrigério Nº 55 e 96

Testemunho

”Bem aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor, para que descansem dos seus trabalhos, as suas obras os sigam” Apoc. 14.13.

Frank SmithNo dia 12 de Dezembro de 2003 aprouve o Senhor levar para Si o nosso amado irmão Frank Smith, que contava 92 anos. Nascido em Nothingham, Inglaterra, no dia 7 de Abril 1911, veio para Portugal em Maio de 1936, convidado pelo saudoso Ir. Viriato Sobral, com quem cooperou durante algum tempo e com quem aprendeu a nossa língua.

Mudou-se para Coimbra em Março de 1939, tendo convivido com o Ir. João Opie, então professor catedrático da Universidade de Coimbra e pioneiro do trabalho evangelistico nesta cidade. Pouco tempo depois este irmão partiu para o Senhor.

A partir de Junho do mesmo ano Frank Smith iniciou o seu profícuo e esforçado ministério entre nós, fundando muitas igrejas e prestando a incondicional assistência ás mesmas.

Por intermédio do seu rico ministério muitas almas se converteram e foram salvas. Quantos crentes receberam edificação ao longo da sua brilhante carreira cristã de 64 anos! Quantos corações foram consolados e animados por via dos seus conselhos! Quantas pessoas possessas foram libertas!

O nosso Irmão Frank Smith deixou uma marca indelével da sua autoridade moral e espiritual, da sua forte personalidade e espírito de sacrifício.

Este servo de Deus era muito admirado, respeitado e amado, não apenas na região Centro, onde exerceu a maior parte do seu ministério, mas também a Norte e a Sul.

Era um Irmão extremamente humilde, incapaz de se gloriar em tudo o que fazia, incapaz de se irar, pronto a ouvir e tardio a falar.

O seu abençoado e abundante ministério, para além do seu exemplo de humildade e mansidão, perdurará na memória de todos quantos foram grandemente beneficiados com as suas ricas e profundas mensagens.

A comunidade Evangélica ficou mais empobrecida com a partida de mais um grande herói da fé da obra evangelistica em Portugal.

A prova de gratidão e respeito da Igreja em Coimbra e demais igrejas desta área e não só ficou patente quer na noite do velório quer no dia do funeral, pela grande afluência de crentes de vários pontos do país que tiveram o grato privilegio de o conhecer e de o ouvir, e que deste modo quiseram manifestar o seu apreço e amor fraternal para com o irmão Frank.

Durante o velório, no salão da Igreja em Coimbra, sita na rua da Sota, usou da Palavra o irmão Orlando Luz , da Igreja em Amoreiras-Lisboa, para enaltecer as virtudes do querido irmão que nos deixou. Disse entre muitas coisas que tinha 19 anos quando começou a ouvir falar do Sr.Frank. Que sempre o impressionou o seu conhecimento acerca das coisas espirituais, bem com o a sua humildade. Que teve o grande privilegio de ouvir as suas mensagens, por diversas vezes, em Lisboa, e de ler os seus artigos publicados.Que não deixará de receber um avultado galardão sendo um exemplo a seguir por todos.

O salão da Igreja em Coimbra foi pequena para receber todos quantos se lá deslocaram para tributarem ao fiel servo de Deus Frank Smith a sua derradeira homenagem e o seu reconhecimento pela obra que deixou feita.

Na igreja foi celebrante o prezado Irmão Sr. João Varandas e no cemitério o prezado Irmão Sr. Eduardo Costa, da Igreja em Vila Nova de Poiares.

O saudoso irmão Frank Smith deixa viúva a nossa amada irmã D. Beatriz Brás que continua internada e carente das nossas orações. Ao nosso irmão Frank Smith o nosso muito obrigado.

Samuel da Silva Oliveira

Beatriz Smith

A Irmã Beatriz Brás Smith, viúva do nosso saudoso Irmão Frank Smith, partiu para a presença do Senhor no dia 19 de Setembro p.p. – com a idade de 85 anos. Esta querida Irmã nasceu em Peniche em 25/10/1919.

Com cerca de 23 anos de idade veio viver para Coimbra com três irmãos. Ter-se-á convertido ao Senhor aos 23 anos de idade, através do testemunho de uma Irmã na fé. Nessa altura frequentava a assembleia dos Irmãos, na Avenida Sá da Bandeira, em Coimbra, onde já pregava o Irmão Frank Smith.

O seu baptismo terá ocorrido pouco tempo depois da sua conversão ao Senhor. Revelou desde logo um forte dom para testemunhar às pessoas incrédulas. Mais tarde foi trabalhar como analista para um Laboratório propriedade de um médico crente, onde desenvolveu sempre a sua actividade profissional.

Desenvolveu, também grande actividade na Igreja como professora da Escola Dominical (durante cerca de 30 anos). Era uma crente muito sincera e frontal quando era necessário apresentar qualquer critica construtiva.

Após a partida para o Senhor da primeira Esposa do nosso Irmão Frank Smith – Irmã Dorothy Smith, em 1985, e após o regresso a Portugal daquele Irmão, o mesmo sentiu-se atraído espiritualmente, pela Irmã Beatriz, e se casou pouco tempo depois. Podemos dizer que foi uma vida inteiramente consagrada ao Senhor e que nos deixou um bom testemunho e um bom exemplo como serva do Senhor.

Sérgio Aço

"In Refrigério" 107, Novembro a Dezembro de 2005

» Secção História «