Assembleias de «Irmãos» em Portugal

História do Movimento de «Irmãos»

Manuel Marques Pereira (1868-1940)

Moisés Henriques, Joaquim Jesus e Manuel Marques PereiraMoisés Henriques (de pé), Joaquim Jesus e Manuel Marques Pereira (sentados).

No dia 07 de Julho de 1940, pelas 17:30 horas, após prolongado sofrimento, mitigado, porém pelas consolações da presença do Senhor, dormiu em Cristo, com 72 anos, este dedicado servo do Senhor, na sua casa de Folharido, Sever do Vouga.

Era primeiro sargento reformado do Exército, tendo estado em Angola de 1894 a 1898, onde se bateu valorosamente nas Campanhas da Lunda, recebendo algumas balas numa perna que o impossibilitaram para o serviço activo. Convertido ao Senhor em 1908 no Folharido, por instrumentalidade do irmão na fé Moisés Henriques, tornou-se desde logo um denodado soldado de Cristo, não só pronto a pregar o Evangelho de Cristo a todos os que o rodeavam, mas pronto a sofrer por Ele.

Marques Pereira não pregava o Evangelho só com os lábios, pregava-o diariamente com uma vida íntegra de santidade, lealdade e honradez.

Foi durante muitos anos guarda-livros da Companhia das Minas e Metalurgia do Braçal, onde esteve empregado desde 1899. Muito amigo da pobreza, chegava a privar-se a si mesmo de muita coisa para poder socorrer os que necessitavam. Possuidor de um coração que transbordava de amor para com todos os seus irmãos na fé, exerceu a hospitalidade em tal grau que, francamente, não conhecemos nas províncias de Portugal outro crente a quem o Senhor tenha dado o privilégio de hospedar tantos dos Seus servos como a este nosso querido Irmão. Pela sua antiga casa do Braçal passaram consecutivamente, durante mais de 30 anos, dezenas de evangelistas, pastores, missionários e colportores das cinco partes do mundo e de todos os agrupamentos evangélicos e estes muitos hóspedes são unânimes em afirmar que Marques Pereira era um verdadeiro gentleman, uma alma cristalina que em todas as suas conversas transpirava sinceridade, bondade e honradez, uma alma que aspirava ardentemente por ver a Palavra de Deus e o Amor de Jesus Cristo difundidos por todos os cantinhos do nosso querido Portugal.

Foram muitas as actividades evangelísticas desta fiel testemunha de Jesus e ao seu esforço se deve a abertura de diversas missões na região Beira-Vouga, como Senhorinha, Palhal, Albergaria-a-Velha, etc., tendo colaborado também entusiasticamente na abertura e manutenção durante bastante tempo das missões de Frossos, Termas de S.Pedro do Sul e outras. Marques Pereira sacrificou pelo Evangelho dinheiro e saúde e todo o tempo que lhe restava do seu emprego – era alegremente empregado na bendita sementeira da Verdade.

Os domingos eram dias de grande actividade para este pioneiro de Cristo. Pregava de manhã no Folharido, marchava depois das serras até ao Palhal, duas horas a pé, pregava ali ás 15hr e voltava a pé até ao Braçal, de onde, depois de uma apressada refeição caminhava mais meia hora até à Senhorinha para ali voltar a pregar. E fez isto durante anos ! Marques Pereira podia dizer como Paulo: "Eu trago no corpo as marcas do Senhor Jesus" porque os seus trabalhos de pioneiro do Evangelho no Palhal valeram-lhe grandes perseguições, entre elas um bárbaro apedrejamento no regresso, em Ribeira de Frágoas.

Em 1917 fundou o jornal O Caminho, o qual tinha uma tiragem de 2000 exemplares. Durante alguns anos o jornal inseriu uma "página dedicada aos encarcerados" que o tornava muito apreciado nas cadeias do país.

Foi também Marques Pereira o organizador das Convenções Evangélicas Beira-Vouga, a primeira das quais teve lugar no Braçal, em Junho de 1929.

O funeral constituiu uma grande manifestação de simpatia da parte do povo e da dos crentes da região Beira-Vouga, que acorreram em grande número, tendo havido representantes de Lisboa, Porto e Coimbra. Falaram e oraram no funeral os Irmãos Ilídio Freire, Viriato Sobral, Eric Barker, Manuel Aparício e Frank Smith.

José Ilídio Freire

«O Caminho», Setembro de 1940

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