Assembleias de «Irmãos» em Portugal

História do Movimento de «Irmãos»

1.8. Os "Irmãos" em Portugal

Dos Primórdios à Actualidade

I. EVANGELIZAÇÃO E MISSÕES

Ao contrário de outros grupos de cristãos, as assembleias dos "irmãos" não surgiram na sequência de qualquer decisão de organizações paraclesiais. Em 1854, um engenheiro químico inglês, Thomas Chegwin, chegou às minas de cobre no Palhal (Albergaria-a-Velha) e ali deu início a aulas para os mineiros e respectivas famílias, distribuindo as Escrituras às pessoas em geral. O seu trabalho e a perspectiva seguiam as práticas metodistas. Contudo, na sequência desse trabalho foi aberto um trabalho no lugar de Palhal, desde o fim do século XIX da responsabilidade de cristãos, do Movimento de "Irmãos" – e que ainda hoje existe.

Simultaneamente, em 1872, Richard e Cathriyn Holden chegaram do Brasil, onde tinham representado a Igreja Episcopal da Escócia e tinham desfrutado da comunhão com o Dr. Robert Kalley no Rio de Janeiro. Este Dr. Kalley, da Igreja Presbiteriana e médico cirurgião de Glasgow, tinha passado desde 1838 a 1845 pela ilha da Madeira, tendo ali muitas pessoas conhecido ao Senhor Jesus Cristo. Este médico transcrevia no final das suas receitas um versículo bíblico, levando a que muitas pessoas pudessem ler, pela primeira vez, textos da Bíblia Sagrada. Contudo, em 1846 estalou uma violenta perseguição religiosa e os seus bens pessoais, o pequeno hospital e as escolas que tinham fundado foram alvo de pilhagem e destruição. O casal, em conjunto com cerca de 2000 pessoas, saíram da Madeira e instalaram-se em diversas partes do mundo, primeiramente nos EUA e depois no Brasil, onde conviveram com os referidos Richard e Cathrin Holden.

Richard Holden tinha também passado algum tempo a viajar na Inglaterra com J.N.Darby, o qual foi um dos pioneiros do trabalho dos "irmãos" (em Plymouth). Os Holden uniram-se aos Irmãos e, tendo-se estabelecido na zona de Lisboa, pelo seu testemunho foi edificado em 1877 o primeiro templo de uma igreja "dos irmãos", em Lisboa – o das Amoreiras. Nos anos seguintes, alguns missionários ingleses continuaram o trabalho, não só em Lisboa, mas também nas áreas limítrofes de Coimbra e Aveiro. Stwart McNair e George Owrens foram as pessoas que mais contribuíram para esse arranque inicial.

Charles e Mart Swan, missionários em Angola, chegaram a Portugal em 1904, e com a ajuda de Robert MacGregor estabeleceram uma outra assembleia dos Irmãos no Bairro Alto de Lisboa: Santa Catarina. Sucedendo ao casal, Guido Waldemar de Oliveira esteve nessa congregação local e trabalhando na Obra do Senhor na zona de Lisboa, desde 1934 a 1967, tendo igualmente servido toda a comunidade evangélica portuguesa como presidente da Aliança Evangélica Portuguesa.

No princípio da segunda metade do século XX, muitos outros missionários pioneiros desempenharam papel de relevo para que o Evangelho chegasse ao conhecimento de muitas povoações do nosso país, do Norte ao Sul. Assim, Ronald Molton, Arthur Ingleby, John Opie, Nascimento de Jesus Freire (Lisboa, Açores e Moçambique), Eric Barker (zona do Porto), Frank Smith (zona de Coimbra), Viriato Dias Sobral (de Espinho a Estarreja) e José Fontoura (zona da Beira-Vouga) – tendo todos já partido para o Senhor. Dentre os que continuam entre nós, cumpre referenciar o trabalho evangelístico e doutrinal do Irmão Manuel Ribeiro (zona da Bairrada) e Carlos Alves (zona de Porto e Gaia).

O primeiro pioneiro português de trabalho mais diversificado em termos geográficos e polifacetado na sua natureza foi José Ilídio Freire. Este servo de Deus dedicou a sua vida completamente ao ministério em 1920, empenhando-se activamente na evangelização itinerante, na distribuição de literatura e no evangelismo entre os reclusos de delito comum. Muitas igregas locais foram fundadas através da sua influência. Em 1933, já se contavam 36 congregações fieis aos princípios neo-testamentários, conhecidas por "irmãos" com aproximadamente 450 membros. Ao longo dos anos, as assembleias (os seus membros) têm sido instrumentos de propagação de literatura cristã, através de diversos jornais, revistas e publicações, por intermédio da Livraria Esperança inaugurada no Porto em 1963, ministério de acampamentos, rádio e mais recentemente televisão.

II. COMO SE CONGREGAM OS "IRMÃOS" NA ACTUALIDADE

O Senhor Jesus Cristo é a Cabeça do Corpo, a Igreja, que é apresentada como a plenitude do Senhor. Esta é, na verdade, a elevada posição da Igreja perante o Senhor, sendo a Sua vontade que nós testifiquemos desta grande verdade. Por isso, os filhos de Deus não podem aceitar, à luz do ensino das Escrituras, qualquer guia humano ou entidade criada pelos homens que dite regras de organização religiosa, pois tal consubstanciaria numa substituição da Cabeça do Corpo de Cristo por uma "cabeça temporal" da Igreja. Como escreveu William McDonald ("Cristo Amou a Igreja"), a autoridade de Cristo só é verdadeiramente reconhecida quando os crentes O deixam dominar em todas as actividades, nas resoluções e na prática.

Em Portugal, os crentes estão cientes desta grande verdade, mas infelizmente muitas vezes não compreendem como pode o Senhor guiar a Sua Igreja na terra e, por isso, alguns sem quererem esperar que se manifeste a vontade de Deus, julgam mais prático resolver as coisas segundo os seus próprios planos, procurando lugares de destaque (como Diótrefes, III João 9,10), criando, agrupando-se e submetendo-se a princípios denominacionais, passando a ter outras "cabeças" além da Cabeça espiritual da Igreja, Cristo. Os chamados "Irmãos em Portugal", ao contrário do que sucede com os crentes "denominacionais" e "interdenominacionais", não aceitam, à luz do Novo Testamento, nenhuma organização dominante, como um sínodo, presbitério, concílio, convenção ou associação para exercer autoridade sobre uma igreja ou grupo de igrejas. Cada igreja é directamente responsável perante Cristo, Cabeça da Igreja, e não podemos aceitar nem praticar seja o que for que negue aquele facto.

III. A COMUNHÃO DE IGREJAS DE IRMÃOS

Existe em Portugal uma organização secular, constituída como Associação sem fins lucrativos, denominada "Comunhão de Igrejas de Irmãos em Portugal" (CIIP). Esta CIIP foi constituída para promover a comunhão entre os crentes (não propriamente entre Igrejas enquanto congregações autónomas). A CIIP embora tenha contribuído para a realização de reuniões mensais entre os anciãos e obreiros "representantes" de cada assembleia local, assim como para a comunhão entre os seus membros, a maioria das actividades cuja realização chamou a si, já existiam antes da constituição da CIIP.

Assim, já existiam, há dezenas de anos, reuniões quadrimestrais de anciãos e obreiros, para comunhão, partilha de testemunho e ministério. As mesmas continuaram a realizar-se, ainda que sob a "capa" da CIIP, mas não excluindo a intervenção de irmãos de Igrejas que não estejam associadas à mesma. Por outro lado, antes da CIIP existia igualmente um "Fundo Missionário", que recebia e distribuía ofertas aos obreiros dedicados a tempo integral na Obra do Senhor. O funcionamento e as regras do "Fundo" mantiveram-se, ainda que integradas no criado "Departamento Missionário da CIIP". Aliás, as pessoas que o continuaram a administrar foram as mesmas. Não houve, assim, a criação de outro fundo ou a alteração das regras, mas unicamente a inserção da sua prática numa contabilidade legal, com isenção fiscal perante o Estado Português.

Ainda a título de exemplo, antes da constituição da CIIP existia igualmente a revista "Refrigério", que era e continuou a ser distribuída a todas as assembleias de irmãos (tenham ou não se associado à CIIP). A partir da constituição da CIIP, o "Refrigério" passou a ficar integrado no Departamento de Comunicações da CIIP, com depósito legal associado ao registo no Ministério da Justiça, mas mantendo o mesmo corpo editorial.

Ou seja, apesar da existência legal desta organização, as Igrejas em Portugal recusaram a sua integração num órgão de cúpula, de superintendência ou com influência na organização, funcionamento da assembleia ou do seu corpo de doutrina. As Igrejas procuraram e continuam a procurar seguir o padrão bíblico de autonomia e independência da assembleia local, embora respeitando e sujeitando-se às regras legais estabelecidas pelas autoridades soberanamente estabelecidas, no âmbito das quais surgiu a referida "CIIP".

Isto, porque é a Igreja e não qualquer organização que é chamada na Bíblia como o rebanho (João 10:16), a lavoura de Deus (1Co. 3:9), o edifício de Deus (1Co. 3:9), o templo de Deus (1Co. 3:16), o corpo de Cristo (Ef. 1:22, 23), a morada de Deus (Ef. 2:22), a noiva de Cristo (Ef. 5:25-27; 2Co. 11:2), a casa de Deus (1Tm 3:15) e a coluna e firmeza da verdade (1Tm 3:5). Apesar da fraqueza da carne, a Igreja e, consequentemente, as assembleias reunidas localmente devem permanecer um baluarte ou reduto de defesa do que foi estabelecido pelo Senhor para proclamar, sustentar e defender a Verdade, não se desviando para aquilo que os padrões humanos possam apontar, mas influenciando o mundo ao redor, tendo por fundamento a afirmação do Senhor Jesus em Mateus 16:18.

Naturalmente que não podemos afirmar que todas as assembleias locais dos "Irmãos" em Portugal não manifestem graves falhas na forma como estão organizadas e como funcionam, porém os princípios segundo os quais cada assembleia local é independente e sem denominação são um laço que une fortemente todos os irmãos.

Isto significa que cada igreja local tem o governo próprio (de anciãos e diáconos), respondendo cada uma de per se perante o Senhor. Tal, contudo, não obsta, antes tem sido prática que a união das assembleias se fortifique através de uma relação espiritual, baseada na posse de uma salvação comum (Judas 3), o reconhecimento de um só Senhor (Ef. 4:5) e a adopção dos princípios de doutrina e organização tal como o da Igreja do I século.

O Senhor não quer o Seu corpo dividido (1 Co. 12:25). Razão por que, as assembleias locais em Portugal continuam a rejeitar qualquer agregação denominacional, por tal criar dissensão e divisão, claramente reprováveis pelo Senhor (Mt 9:16; 27:51; Jo. 7:43; 9:16 e 10:19).

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