Assembleias de «Irmãos» em Portugal

História do Movimento de «Irmãos»

2.8. Trofa

«Um Desacato à Liberdade das Crenças»

«Para atender às necessidades espirituais dos fieis à doutrina protestante que se espalha na importante povoação de Trofa, concelho de Santo Tirso, a Missão Evangélica do Alto da Maia resolveu instalar ali um dos seus templos. E no domingo passado procedeu-se à sua inauguração com um acto de culto que principiou pelas 15 horas, na presença das pessoas interessadas.

Minutos depois, num templo católico local, um sino tocou insolitamente a rebate. E acto contínuo, mais insolitamente ainda, um grande cortejo de pessoas surgiu diante da Igreja Evangélica, patenteando algazarra e gestos ameaçadores.

Estabeleceu-se grande confusão que logo alastrou para o interior do próprio templo, onde vários fieis, incluindo o ministro do culto, foram molestados – e mais o teriam sido, se não houvessem escapado a tempo. Um dos homens atacados, que se refuguiara num café, foi até ali perseguido por um dos manifestantes armado de cacete, que só não utilizou em estúpida agressão, porque disso o impediram a dona e alguns fregueses do estabelecimento!

O lamentável incidente ameaçava degenerar numa insubordinação generalizada. E isso apenas deve ter sido evitado, primeiro pela intervenção da patrulha da GNR de Santo Tiro, que protegeu o ministro protestante até à sua saída da Trofa; e mais trade, pela chegada de um piquete da mesma Guarda, ida do Porto, que matou à nascença os esboços de novos desacatos.

Ao que parece, o pároco da freguesia não é nada estranho a estes reprováveis acontecimentos, que estão sendo objecto de inquérito. Consta, por exemplo, que à homilia da missa, ele teria feito alusões deliberadamente susceptíveis de acirrar os ânimos. E no fim da missa teriam sido distribuídos ao povo, na rua e até de porta em porta, panfletos incitadores a manifestações hostis.

Vários dos ofendidos vieram à nossa Redacção exprimir as suas queixas, no sentido de que sejamos intérpretes do seu pedido de providências.

Não podemos deixar de estar com eles, quando com eles estão todas as razões humanas, cristãs e até constitucionais, para livremente professarem e praticarem a religião que em sua consciência adoptem. Tentar impedi-los disso por meios violentos é não só uma ilegalidade punível, mas sobretudo uma atitude indigna da verdadeira doutrina católica apostólica romana. E, finalmente, um acto de rebeldia para com as intenções do actual Sumo Pontífice, notoriamente preocupado com a conciliação de todas as Igrejas cristãs numa comunidade de objectivos».

Artigo publicado no Jornal de Notícias e transcrito em "Vida Abundante" Nº 13, Janeiro de 1962

Juiz do Tribunal de Santo Tirso dá Razão aos Crentes

«Após os distúrbios no dia da inauguração, no dia 03 de Fevereiro o Sr. António S. foi à Trofa, onde fez uma pequena reunião de oração, finda a qual se dirigiu a casa do senhorio da Casa de Oração, Sr. Adelino Campos, para confraternizar. Chegados ali quase todos, surge logo o Regedor e alguns Guardas o qual discute com o chefe da casa e pede a expulsão dos visitantes de sua casa. Este diz-lhe que é ele quem manda na sua casa. O Regedor, não satisfeito, agarrou-o pelo casaco e deu-lhe voz de prisão. A esposa assustada diz-lhe que se prendem o marido, também prendem a ela. O Regedor agarra-a pela roupa do peito e ela, sentindo-se ofendida, dá-lhe uma bofetada.

Nesta altura, surge o Sr. António que pretende ser o capturado por ser um dos responsáveis da Congregação. Um guarda agarra-o pelas costas do casaco e dá-lhe voz de prisão dizendo: «a ti meu patife é que te queremos apanhar».. E seguiram para a prisão de Santo Tirso.

No caminho, o Regedor quis mandar regressar a esposa do Sr. Campos e o Sr. António, mas estes insistiu em querer saber por que havia sido preso. Em Santo Tirso, a autoridade disse que não podiam ser presos e deviam ser libertos. Mais uma vez o Sr. António insistiu em querer saber e ser julgado. Como não podiam ser detidos mais do que 24 horas, convocou-se o Tribunal para Domingo, 4, às 18 horas. Entretanto, na prisão, o Sr. Antónion anunciou o Evangelho, primeiro ao carcereiro, sobre o "carcereiro de Filipos" e depois aos presos, alguns dos quais, choraram ao ouvir o Evangelho.

No Domingo, iniciou-se o julgamento pelas 19:00 hr. Era importante porque se a causa se perdesse, talvez algumas autoridades locais ganhassem forças para impedir a instalação de novas Congregações Evangélicas. O povo de Santo Tirso e Trofa, na maioria, viu a razão que assistia aos Evangélicos e pediu, até, a abertura duma Congregação em Santo Tirso!

No largo fronteiro ao Tribunal, juntou-se uma multidão, calculada por um jornalista em 15 mil pessoas. Quando os crentes subiam a escadaria, ouviam-se, de todos os lados, palavras encorajadoras. Foi interrogado o Sr. Campos, demoradamente, e a seguir depôs o Sr. António que aproveitou a ocasião para anunciar a Cristo, falando por uma hora. Marcou-se nova audiência para o dia 16, às 10:30 hr, quando foram interrogados o Regedor e o substituto, que caíram em contradições, chegando a acusar os crentes de estarem numa reunião pública, ao que o Sr. Dr. Juiz replicou prontamente. A certa altura o Senhor Juiz teve de perguntar ao acusador se estava a brincar e dizer «o lugar para isso são os parques infantis!».

Realizaram-se mais duas audiências, uma a 23 às 16:30 e outra a 2 de Março às 17:30hr. A sentença absolveu o Sr. António Silva e condenou o casal por terem faltado ao respeito à autoridade, a Esposa em 20 dias de prisão e o marido em 30, remíveis a 25$00 diários.

O Sr. Dr. Juiz fez sentir que ninguém pode impedir a instalação de Congregações Evangélicas ou de qualquer outra Confissão, visto que a Constituição da República Portuguesa garante a liberdade e a inviolabilidade de crenças, e fez votos para que se faça um bom trabalho evangélico na Trofa.

Casos destes são profundaemte tristes, porque revelam a intolerância, o fanatismo e até o obscurantismo de que alguns estão possuídos. Por outro lado, revelam que ninguém pode impedir a proclamação do Evangelho, e que os Evangélicos devem sabiamente, fazer valer os seus direitos. Relevou também, e oxalá aprendamos a lição para sempre, que numa Congregação Evangélica, no contacto com autoridades ou em lugar de responsabilidade, nunca devem estar pessoas que não têm forte formação cristã. O casal em vista é muito novo na Fé, e está disposto a crescer no Senhor.

Ao Sr. Dr. Cadaval Coutinho, crente evangélico, que tomou a defesa dos réus, desinteresssadamente, a Congregação do Alto da Maia e nós expressamos a mais profunda gratidão.

O Casal Campos tem-se esforçado muito para que a Trofa possua uma Casa de Oração. Agora gastou mais de 2.000$00. Perderam os inquilinos logo que estes souberam que arrendara a casa para uma Congregação, e vários amigos, e ganharam a inimizade de outros.

Após o incidente, graças a Deus, os cultos prosseguem regularmente».

Tertuliano C. B. H. de Figueiredo

Artigo publicado em "Vida Abundante" Nº 16, Abril de 1962

Jornal de Notícias – Jornal Diário Português

» Secção História «